
Petro pede a Trump saída de lista de sanções e cita avanços na erradicação de coca, mas números divergem
Em telefonema classificado como “amável”, o presidente colombiano solicitou apoio para ser retirado da lista OFAC e apresentou dados de substituição de cultivos que contrastam com os registos da ONU.
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e o homólogo norte-americano, Donald Trump, mantiveram uma conversa telefónica na manhã de 3 de julho centrada no pedido de retirada de Petro e da sua família da lista de sanções da OFAC, a agência do Tesouro dos EUA que bloqueia pessoas e entidades por suspeitas de vínculos com narcotráfico ou terrorismo. Segundo o relato do próprio Petro e de um comunicado da Presidência colombiana, Trump afirmou que “faria o melhor” para que a exclusão se concretizasse e manifestou surpresa por desconhecer que o líder cessante e os seus familiares ainda constavam da lista, imposta em outubro de 2025. Petro descreveu o diálogo como “amável” e revelou que o presidente norte-americano o tratou por “good man” (ou “guru”, noutras traduções), acrescentando que Trump também ignorava que o colombiano não apoiava o presidente eleito, Abelardo de la Espriella.
A par do pedido de alívio sancionatório, Petro apresentou números do programa de substituição voluntária de cultivos de folha de coca. De acordo com a Presidência, foi atingida a meta de cerca de 30 mil hectares erradicados e projeta-se alcançar 41 mil até ao final de 2026. O mandatário solicitou ainda que Washington mantenha o financiamento do programa, garantido até dezembro deste ano, e que colabore com o futuro governo de De la Espriella para lhe dar continuidade. A Casa Branca não emitiu qualquer comunicado oficial sobre a chamada, e as declarações conhecidas provêm exclusivamente da parte colombiana.
Os números da erradicação, porém, não coincidem com os dados certificados pela Unodc, a agência da ONU para drogas e crime. Em declarações ao site La Silla Vacía, o diretor regional da Unodc, Amado Philip de Andrés, indicou que, em quatro meses e meio, foram erradicadas apenas 9.200 hectares — menos de um terço do valor reportado por Petro. Mantido o ritmo, a projeção para o final de 2026 rondaria os 28 mil hectares. A discrepância introduz um elemento de tensão factual num momento em que a Colômbia continua a ser o maior produtor mundial de cocaína, com 261 mil hectares semeados em 2024, um aumento de 3,5% face ao ano anterior, segundo o mais recente relatório da Unodc.
A conversa ocorre a um mês de Petro deixar o cargo, num contexto de relações bilaterais marcadas por atritos. Em 2025, Trump classificara o colombiano como “líder do narcotráfico” e retirara a certificação do país como aliado na luta antidrogas, além de incluir Petro, a primeira-dama Verónica Alcocer e o ministro do Interior Armando Benedetti na lista OFAC. Apesar de um encontro bilateral em fevereiro de 2026 ter aliviado tensões, o presidente norte-americano apoiou abertamente a candidatura do ultradireitista De la Espriella, que tomará posse em agosto. Na perspetiva de observadores em Bogotá, a promessa de Trump de “atuar no tema” das sanções pode depender da vontade política da nova administração colombiana e da capacidade de a defesa de Petro apresentar provas que contrariem os fundamentos da inclusão na lista. O dossier fica agora à espera de gestos concretos de Washington, enquanto a transição de poder em Bogotá se aproxima.
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