
O vinil que une gerações: de Miley Cyrus aos Rolling Stones, o regresso do objeto físico
Enquanto canções com décadas ganham nova vida em formatos analógicos, a tabela de singles em vinil do Reino Unido revela um diálogo inesperado entre veteranos e novas vozes da música pop.
Há algo de profundamente tátil no regresso de “Party in the U.S.A.” às montras britânicas. A canção que Miley Cyrus lançou em 2009, e que se tornou um hino não oficial do verão americano, acaba de estrear no 21.º lugar da tabela de singles em vinil do Reino Unido — um objeto físico que condensa nostalgia, identidade e a estranha permanência de um êxito que nunca dependeu de fronteiras. O disco, prensado quase duas décadas depois da gravação original, aterrou nas lojas sem alarido, mas encontrou um público que, do outro lado do Atlântico, não celebra o 4 de julho. A sua presença naquela lista semanal, que contabiliza apenas canções vendidas em formato de cera, é um gesto silencioso de afeto por um artefacto que resiste à efemeridade das plataformas de streaming.
A mesma tabela que acolhe Cyrus tornou-se, nos últimos meses, um palco de encontros improváveis. Sabrina Carpenter, com o single “House Tour”, estreou diretamente no primeiro lugar, somando o oitavo tema da sua carreira a frequentar o topo da lista — todos eles, sem exceção, alojados entre os três primeiros postos. A cantora, que há quase um ano lançou o álbum *Man’s Best Friend*, viu o formato físico amplificar a longevidade de um projeto que já parecia ter esgotado o seu ciclo promocional. Quase em simultâneo, os Rolling Stones viram o seu novo lado A, “Jealous Lover”, ser travado precisamente na segunda posição, tanto na tabela de vendas físicas como na de singles em vinil. Quem os bloqueou foi Phoebe Bridgers, com “Lost Boys”, um tema que confirma a capacidade da compositora californiana de ocupar espaços antes reservados aos dinossauros do rock. Observadores em Londres notam que este braço de ferro entre gerações é menos uma competição e mais um sintoma de como o vinil reordena hierarquias: a história já não garante a dianteira, mas a materialidade do objeto parece devolver aos fãs o poder de reescrever o cânone.
Fora do universo dos singles de sete polegadas, o álbum enquanto corpo físico — ou a sua ausência — também conta uma história. David Bowie, que morreu em janeiro de 2016, acaba de atingir um marco que nunca experimentou em vida: a compilação *Legacy* completou 500 semanas na tabela oficial de álbuns do Reino Unido, impulsionada sobretudo pelo streaming, mas também por uma presença constante no imaginário coletivo. Nenhum outro disco do músico se aproxima dessa longevidade; o segundo mais duradouro, *The Rise and Fall of Ziggy Stardust*, contabiliza 168 semanas. Do lado das artistas em atividade, Katy Perry viu a sua primeira coletânea de êxitos, *The Ones That Got the Plays*, subir ao top 10 britânico oito semanas após o lançamento, num movimento que ecoa a viralização inesperada de “The One That Got Away”, single de 2010 que voltou a incendiar as plataformas. Na perspetiva de analistas de mercado, a compilação funciona como uma ponte entre o catálogo e o novo single “Watch It Burn”, que estreou nas tabelas de downloads sem, contudo, entrar na lista principal de canções.
A vitalidade dos formatos físicos contrasta com a crueza das palavras de Mick Jagger numa entrevista concedida a jornalistas escandinavos. “Não se deve fazer música por dinheiro”, afirmou o vocalista dos Stones, sentado em sua casa em Londres, enquanto se preparava para o lançamento de *Foreign Tongues*, o 25.º álbum de estúdio da banda. Aos 82 anos, Jagger descreveu as sessões de gravação como intensas e breves — quatro semanas —, com o produtor Andrew Watt a funcionar como um “bom ouvido”, capaz de dizer com franqueza quando uma canção não estava à altura. O disco, que a crítica britânica recebeu como um trabalho que “uma banda 60 anos mais jovem invejaria”, inclui a participação póstuma do baterista Charlie Watts e uma colaboração com Robert Smith, dos The Cure, num tema que dispara contra “bilionários a rastejar para os seus refúgios no céu”. A energia que Jagger exibe, e que o próprio atribui a uma necessidade intrínseca ao rock que pratica, ecoa a resiliência de um formato que muitos deram como morto.
Enquanto no Reino Unido as tabelas de vinil e de vendas físicas reescrevem a narrativa do sucesso, do outro lado do Atlântico a country music impõe a sua própria lógica. “Choosin’ Texas”, de Ella Langley, regressou ao primeiro lugar da Billboard Hot 100 pela 12.ª semana não consecutiva, mas no Reino Unido o tema ainda luta por um lugar ao sol: subiu ao segundo posto na tabela de downloads, atrás de um tema de dança, e ocupa o nono lugar na lista geral de canções. A cantora, que editou recentemente o álbum *Dandelion*, é um exemplo de como os ritmos de Nashville viajam com velocidades diferentes consoante a latitude. No fim, o que une estas histórias é a imagem de um disco a rodar no prato — seja ele de Miley Cyrus, dos Stones ou de uma jovem compositora do Alabama —, devolvendo à música uma espessura que os algoritmos não conseguem replicar.
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