
Sob o relvado de Berlim, o último bunker nazi enfrenta a picareta
Plano de luxo para terrenos da antiga chancelaria de Hitler reacende o debate sobre a preservação dos vestígios do regime.
Sob um montículo de relva num terreno baldio no centro de Berlim, escondido atrás dos edifícios dos estados de Hesse e Brandemburgo, um portal de tijolos meio soterrado conduz ao subsolo. É tudo o que resta da Nova Chancelaria do Reich, o centro nevrálgico do poder nazi. Em março, o jornal BZ revelou que um investidor de Hamburgo planeia demolir este bunker — o mais antigo da era nazi ainda de pé na capital — para erguer um prédio de luxo com 66 apartamentos e um edifício de escritórios. A notícia acendeu um debate aceso sobre o que fazer com as cicatrizes físicas de um passado que a Alemanha não consegue esquecer.
O bunker, com 1200 metros quadrados e paredes de 1,7 metros de espessura, serviu de abrigo ao pessoal da chancelaria e, nos últimos dias da guerra, de hospital militar. Não se confunde com o Führerbunker, situado a cerca de 120 metros, onde Hitler e Eva Braun se suicidaram a 30 de abril de 1945. Esse foi destruído e soterrado, e sobre ele existe hoje um parque de estacionamento com uma placa informativa, colocada apenas em 2006 para evitar peregrinações neonazis. O bunker da chancelaria, porém, permaneceu esquecido sob um monte de terra, com a sua entrada oculta, enquanto o terreno à volta era disputado por projetos imobiliários.
A proposta de demolição dividiu a cidade. O senador da Construção, Christian Gaebler, afirmou que a autarquia não travará a construção de habitação tão necessária para preservar um bunker que pode tornar-se local de romaria. A diretora de urbanismo, Petra Kahlfeldt, lembrou que Berlim já dispõe de numerosos sítios históricos subterrâneos abertos ao público. Do lado oposto, o historiador Dietmar Arnold, que visitou o bunker pela última vez em 2007 e o encontrou em excelente estado, classificou a demolição como “loucura total”. Arnold defende a criação de um museu em parceria com o Museu do Holocausto, argumentando que a Alemanha já destruiu demasiada história, tanto nazi como comunista.
O Conselho de Monumentos de Berlim emitiu uma recomendação interna contra a demolição, sublinhando que a Nova Chancelaria foi o centro de planeamento e o ponto de partida da Segunda Guerra Mundial, além de simbolizar o fim catastrófico do regime. O órgão pediu que o estado de conservação do bunker fosse avaliado para eventual classificação como património. A tensão entre a memória e o desenvolvimento urbano não é nova na capital alemã. Durante décadas, os vestígios do nazismo foram apagados ou deixados sem identificação, temendo-se que se transformassem em santuários para a extrema-direita. Agora, a pressão imobiliária numa cidade em crescimento coloca a questão de forma mais premente.
O projeto da firma BLRM, de Hamburgo, prevê um edifício de sete andares com fachadas envidraçadas, que contrastaria com a solidez cega do bunker. Arnold sugere que seria possível construir por cima da estrutura sem a demolir totalmente, preservando as entranhas de betão como testemunho. Enquanto o debate prossegue, o montículo de relva continua a esconder o portal de tijolos, à espera de uma decisão que definirá se a última pegada física do centro de poder de Hitler desaparecerá sob o luxo residencial ou se tornará um lugar de memória.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Os planos para demolir o último bunker nazista intacto de Berlim e construir apartamentos de luxo provocaram forte condenação. O bunker, parte do complexo da Chancelaria do Reich, é visto como um testemunho histórico essencial dos crimes do Terceiro Reich e de sua queda. Críticos alertam que sua destruição não apenas apagaria um memorial crucial, mas também criaria um vazio que grupos de extrema direita poderiam explorar.
Em Berlim, um debate opõe preservação histórica e desenvolvimento urbano em torno de um bunker nazista abandonado. O plano diretor de 2006 já previa a construção de novas moradias no local, mas grupos locais pedem que o bunker seja conservado e aberto ao público como documento histórico. A controvérsia reflete a tensão contínua entre lembrar o passado e atender às necessidades habitacionais do presente.
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