
"Zero dias desde a última insensatez": o mal-estar na Meta em plena era da IA
Enquanto a empresa investe milhares de milhões em inteligência artificial, demissões, vigilância de funcionários e saídas de peso revelam um clima interno tenso.
Num fórum interno da Meta, um funcionário resumiu o estado de espírito da empresa com um meme da série The Office: “0 days since our last nonsense” (zero dias desde a nossa última insensatez). A imagem, partilhada em junho, ecoava o cansaço de uma força de trabalho que, em poucos meses, viu colegas serem despedidos, projetos serem cancelados e uma iniciativa de treino de inteligência artificial transformar os seus próprios cliques e teclas em matéria-prima para os modelos da empresa.
A Iniciativa de Capacitação de Modelos, lançada em abril e suspensa a 22 de junho, capturava a atividade de navegação e as interações de funcionários nos Estados Unidos para treinar agentes de IA. Mark Zuckerberg defendeu o programa: “Os modelos de IA aprendem ao observar pessoas realmente inteligentes a fazer coisas”, disse, segundo a Wired. Mas a ferramenta gerou uma revolta: mais de 1.600 trabalhadores assinaram uma petição a exigir o seu fim, e alguns compararam a empresa a uma “fábrica de extração de dados”. A suspensão ocorreu depois de conversas privadas e métricas de desempenho terem ficado acidentalmente acessíveis a todo o pessoal, um incidente que poderia atrair a atenção dos reguladores europeus.
O mal-estar contrasta com a pujança financeira da Meta. No primeiro trimestre de 2026, o lucro líquido ultrapassou os 26 mil milhões de dólares, impulsionado pela publicidade, que representa quase 98% da receita. Contudo, a fatura dos investimentos em IA disparou: a empresa planeia gastar até 145 mil milhões de dólares este ano, quase o dobro do ano anterior. Para financiar esta corrida, Zuckerberg, que detém um poder quase absoluto, impôs cortes drásticos. Na primavera, 8.000 postos de trabalho foram eliminados — cerca de 10% da força laboral — e outros 7.000 funcionários foram transferidos para a divisão de IA. Relatos na imprensa americana descrevem uma “cultura do medo”, onde cada rumor de despedimento paralisa o trabalho.
A Meta tenta recuperar o atraso face a Google, OpenAI e Anthropic. Os seus próprios modelos, repetidamente adiados, desiludiram até internamente. Para ganhar terreno, Zuckerberg investiu mais de 14 mil milhões de dólares na Scale AI e recrutou o seu jovem CEO, Alexandr Wang, então com 28 anos, para liderar um laboratório de “superinteligência”. A aposta, porém, afastou figuras históricas. Yann LeCun, um dos “padrinhos” da IA moderna e líder da investigação desde 2013, viu-se subitamente a reportar a Wang. Deixou a empresa no final de 2025 e, em entrevista ao Financial Times, lamentou que Wang “não tem experiência em investigação” e que a busca da Meta por superinteligência baseada em grandes modelos de linguagem é um “beco sem saída”.
A Meta não está sozinha. Um levantamento do Business Insider mostra que as grandes tecnológicas estão a gastar milhares de milhões em indemnizações por despedimento. A Amazon registou 2,7 mil milhões de dólares em custos de rescisão em 2025; a Oracle e a Intel, 1,8 mil milhões cada. A Dell, a Cisco e outras também reduziram efetivos para redirecionar investimentos para a IA. Enquanto Zuckerberg afirma, em entrevistas, que a aposta em ferramentas que “capacitem as pessoas” pode gerar mais empregos no futuro, o presente na Meta é pontuado por mesas vazias e um programa de vigilância suspenso, à espera de uma investigação interna. A imagem que fica é a de um meme partilhado num fórum corporativo, onde o contador de dias sem absurdos nunca passou do zero.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A imprensa latino-americana retrata um clima de medo e raiva dentro da Meta: demissões em massa, vigilância de funcionários e fuga de cérebros envenenam o ambiente de trabalho, apesar da prosperidade financeira. A corrida pela IA é mostrada como uma máquina que esmaga os trabalhadores.
A mídia sul-asiática justapõe as recentes demissões da Meta à declaração de Zuckerberg de que as empresas devem capacitar os trabalhadores em vez de substituí-los. A narrativa destaca a lacuna entre as garantias públicas e a realidade dos cortes de empregos, num tom pragmático mas cético.
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