
Ouro cai abaixo de US$ 4.000 e atinge mínima de sete meses com pressão de juros e dólar
O metal recuou 14% no segundo trimestre, o pior desempenho desde 2013, enquanto investidores recalibram expectativas para a política monetária dos EUA e a demanda asiática ganha protagonismo.
O ouro à vista rompeu o suporte de US$ 4.000 por onça e tocou US$ 3.942,99, o menor patamar desde novembro, acumulando perda superior a 11% em relação aos recordes de janeiro. Em Dubai, o grama de 24 quilates caiu para 481,50 dirhams, uma redução de 61 dirhams desde o pico de 2 de junho. A queda de 14% no segundo trimestre configura o pior desempenho trimestral em treze anos e reflete uma combinação de fatores que pressionam o metal.
A principal força por trás da correção é a reavaliação das taxas de juro nos Estados Unidos. Declarações da presidente do Fed de Cleveland, Beth Hammack, de que não vê evidências de desaceleração econômica e que novas altas podem ser necessárias para conter a inflação, reforçaram as expectativas de aperto monetário. Os mercados passaram a precificar uma probabilidade de 67% de elevação em setembro, segundo a ferramenta FedWatch do CME. O rendimento dos títulos do Tesouro de dez anos subiu, e o índice Bloomberg Dollar Spot avançou 0,2%, encarecendo o ouro para detentores de outras moedas. No plano técnico, o cruzamento da média móvel de 200 dias abaixo da de 50 dias — o chamado “cruz da morte” — intensificou a pressão vendedora, sinalizando, para alguns investidores, a formação de uma tendência de baixa de longo prazo.
O contexto geopolítico teve efeito ambíguo. O conflito entre Estados Unidos e Irã, que impulsionou o ouro no primeiro semestre, agora gera necessidade de liquidez nos países do Golfo, que tradicionalmente aplicam excedentes de petróleo no metal. A interrupção do fluxo no Estreito de Ormuz forçou esses países a drenar reservas, enquanto a Índia, um dos maiores consumidores, freou importações para preservar divisas diante da alta do petróleo. Ao mesmo tempo, as conversas técnicas entre negociadores americanos e líderes regionais em Doha, descritas como positivas por um alto funcionário da administração, reduziram o prêmio de risco, embora o Irã tenha recusado encontros com enviados seniores, limitando o otimismo diplomático.
O World Gold Council, em seu relatório de meio de ano, aponta que o centro de gravidade da demanda se desloca do Ocidente para a Ásia. As sessões asiáticas sustentaram os repiques do primeiro semestre, enquanto as quedas se concentraram no horário americano, refletindo o papel crescente de investidores chineses, indianos e japoneses na formação de preços. A China continua a acumular reservas para fortalecer o yuan como alternativa ao dólar, e a procura estrutural de bancos centrais, investidores institucionais e consumidores asiáticos oferece um piso à cotação. O Conselho estima que, mantidas as atuais expectativas de ao menos uma alta do Fed em 2026 e inflação americana ao redor de 3,9%, o ouro deve oscilar em uma faixa de ±5% em torno de US$ 4.100 até o fim do ano.
Os próximos catalisadores são os dados de emprego dos EUA. O relatório ADP de junho e os números de folhas de pagamento não-agrícolas na quinta-feira serão observados em busca de sinais sobre a resiliência do mercado de trabalho, que dá ao Fed margem para manter a política restritiva. Uma deterioração econômica mais acentuada poderia reacender a demanda por refúgio e empurrar o ouro acima de US$ 4.500, enquanto um fortalecimento adicional do dólar e altas de juros acima do esperado representam os principais riscos de queda, com potencial de desencadear novas vendas caso o metal permaneça abaixo de US$ 4.000.
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