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Sociedade & Culturaquarta-feira, 1 de julho de 2026

O silêncio depois do pênalti e o rugido das redes: a escalada do ódio racial na Copa de 2026

A eliminação da Holanda para Marrocos desencadeou uma avalanche de insultos racistas contra jogadores negros, enquanto a FIFA revela que as publicações abusivas na fase de grupos aumentaram 13 vezes em relação a 2022.

O estádio já esvaziava quando Crysencio Summerville, Justin Kluivert e Quinten Timber se aproximaram da marca da cal. A disputa por pênaltis contra Marrocos, nas oitavas de final, terminou em silêncio para a Holanda — e em um estrondo digital que os três jogadores só perceberiam minutos depois, ao abrir os próprios perfis. Emojis de macaco, gifs racistas e uma torrente de insultos os aguardavam. A federação holandesa confirmou que os atletas precisaram limitar os comentários em suas contas oficiais, enquanto a violência simbólica se repetia como um eco de outras noites amargas do futebol europeu.

O episódio holandês não foi um caso isolado, mas a ponta mais visível de um fenômeno que a FIFA quantificou com precisão inédita. O Serviço de Proteção às Redes Sociais (SMPS) da entidade analisou mais de seis milhões de publicações e comentários durante a fase de grupos do Mundial de 2026 — um volume 33% superior ao de 2022 — e identificou 89 mil mensagens abusivas. O número representa um salto de 13 vezes em relação às 6.700 registradas no Catar, ainda que o torneio atual tenha 48 seleções e 72 partidas na primeira fase, contra 32 equipes e 48 jogos na edição anterior. Do total de ofensas, 11% tinham motivação racial, três pontos percentuais acima do índice de quatro anos atrás. Cerca de mil contas foram encaminhadas para investigação, e mais de cem casos já reúnem elementos para ações judiciais.

Analistas brasileiros apontam que o futebol se tornou um palco privilegiado para a expressão de tensões sociais mais amplas. O professor Adriano Freixo, da Universidade Federal Fluminense, descreve um mecanismo de bode expiatório: “Quando você quer culpar alguém por todos os problemas, o mais fácil é procurar aquele que é diferente.” A extrema direita europeia, observa, constrói seu discurso sobre a dicotomia amigo-inimigo, e o jogador negro ou filho de imigrantes encarna a figura do “outro” no momento da derrota. O fenômeno já havia atingido Bukayo Saka, Marcus Rashford e Jadon Sancho na final da Euro 2021, e Kylian Mbappé no mesmo torneio. Agora, com a Copa sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, a dimensão transnacional do ódio online se amplia, enquanto as seleções europeias exibem elencos cada vez mais diversos: na França, mais de 75% dos convocados são filhos de imigrantes; na Holanda, metade.

A comoção na Holanda ganhou contornos de acerto de contas geracional quando Clarence Seedorf, ídolo do país e ex-meia da seleção, publicou um manifesto em vídeo. “Também perdi pênaltis pela Holanda. Naquela época não existiam redes sociais, mas eu sentia o que estava acontecendo. Isso teve um grande impacto na minha carreira”, afirmou. Seedorf cobrou punições severas e alertou que o silêncio de figuras públicas as torna cúmplices. A federação holandesa, por sua vez, traçou “uma linha clara” contra o racismo, mas o gesto de Seedorf ecoou para além das fronteiras: observadores em Lisboa e no Rio de Janeiro notaram que a fala do ex-jogador expôs a ferida de um futebol que, dentro de campo, celebra a meritocracia da bola, mas fora dele ainda digere mal a diversidade que o sustenta.

Enquanto as plataformas ocultaram 181 mil comentários de ódio e o SMPS reunia provas para processos legais, a imagem que persiste é a de três jogadores silenciando as próprias redes para sobreviver à noite. A Copa de 2026, a primeira com 48 seleções, revelou não apenas um novo mapa geopolítico do esporte, mas também a metástase de um ódio que viaja na velocidade de um clique e encontra nos pênaltis perdidos o gatilho para se manifestar.

Como a mesma história é contada em outros lugares.

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Imprensa latino-americanaImprensa do Sudeste Asiático
Imprensa latino-americana/ Bolivariana / progressista
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Os ataques racistas contra os jogadores holandeses após a cobrança de pênalti revelam uma profunda hipocrisia: são celebrados como europeus na vitória, mas reduzidos a imigrantes na derrota. O episódio, inserido em um aumento de abusos online documentado pela FIFA, gerou pedidos de punição e um acerto de contas com o racismo persistente no futebol.

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DistanciamentoPragmatismo

O serviço de proteção de redes sociais da FIFA contabilizou 89 mil postagens abusivas durante a fase de grupos, um aumento de treze vezes em relação ao torneio anterior. Os números evidenciam uma escalada acentuada do assédio online contra jogadores e equipes.

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quarta-feira, 1 de julho de 2026

O silêncio depois do pênalti e o rugido das redes: a escalada do ódio racial na Copa de 2026

A eliminação da Holanda para Marrocos desencadeou uma avalanche de insultos racistas contra jogadores negros, enquanto a FIFA revela que as publicações abusivas na fase de grupos aumentaram 13 vezes em relação a 2022.

O estádio já esvaziava quando Crysencio Summerville, Justin Kluivert e Quinten Timber se aproximaram da marca da cal. A disputa por pênaltis contra Marrocos, nas oitavas de final, terminou em silêncio para a Holanda — e em um estrondo digital que os três jogadores só perceberiam minutos depois, ao abrir os próprios perfis. Emojis de macaco, gifs racistas e uma torrente de insultos os aguardavam. A federação holandesa confirmou que os atletas precisaram limitar os comentários em suas contas oficiais, enquanto a violência simbólica se repetia como um eco de outras noites amargas do futebol europeu.

O episódio holandês não foi um caso isolado, mas a ponta mais visível de um fenômeno que a FIFA quantificou com precisão inédita. O Serviço de Proteção às Redes Sociais (SMPS) da entidade analisou mais de seis milhões de publicações e comentários durante a fase de grupos do Mundial de 2026 — um volume 33% superior ao de 2022 — e identificou 89 mil mensagens abusivas. O número representa um salto de 13 vezes em relação às 6.700 registradas no Catar, ainda que o torneio atual tenha 48 seleções e 72 partidas na primeira fase, contra 32 equipes e 48 jogos na edição anterior. Do total de ofensas, 11% tinham motivação racial, três pontos percentuais acima do índice de quatro anos atrás. Cerca de mil contas foram encaminhadas para investigação, e mais de cem casos já reúnem elementos para ações judiciais.

Analistas brasileiros apontam que o futebol se tornou um palco privilegiado para a expressão de tensões sociais mais amplas. O professor Adriano Freixo, da Universidade Federal Fluminense, descreve um mecanismo de bode expiatório: “Quando você quer culpar alguém por todos os problemas, o mais fácil é procurar aquele que é diferente.” A extrema direita europeia, observa, constrói seu discurso sobre a dicotomia amigo-inimigo, e o jogador negro ou filho de imigrantes encarna a figura do “outro” no momento da derrota. O fenômeno já havia atingido Bukayo Saka, Marcus Rashford e Jadon Sancho na final da Euro 2021, e Kylian Mbappé no mesmo torneio. Agora, com a Copa sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, a dimensão transnacional do ódio online se amplia, enquanto as seleções europeias exibem elencos cada vez mais diversos: na França, mais de 75% dos convocados são filhos de imigrantes; na Holanda, metade.

A comoção na Holanda ganhou contornos de acerto de contas geracional quando Clarence Seedorf, ídolo do país e ex-meia da seleção, publicou um manifesto em vídeo. “Também perdi pênaltis pela Holanda. Naquela época não existiam redes sociais, mas eu sentia o que estava acontecendo. Isso teve um grande impacto na minha carreira”, afirmou. Seedorf cobrou punições severas e alertou que o silêncio de figuras públicas as torna cúmplices. A federação holandesa, por sua vez, traçou “uma linha clara” contra o racismo, mas o gesto de Seedorf ecoou para além das fronteiras: observadores em Lisboa e no Rio de Janeiro notaram que a fala do ex-jogador expôs a ferida de um futebol que, dentro de campo, celebra a meritocracia da bola, mas fora dele ainda digere mal a diversidade que o sustenta.

Enquanto as plataformas ocultaram 181 mil comentários de ódio e o SMPS reunia provas para processos legais, a imagem que persiste é a de três jogadores silenciando as próprias redes para sobreviver à noite. A Copa de 2026, a primeira com 48 seleções, revelou não apenas um novo mapa geopolítico do esporte, mas também a metástase de um ódio que viaja na velocidade de um clique e encontra nos pênaltis perdidos o gatilho para se manifestar.

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Os ataques racistas contra os jogadores holandeses após a cobrança de pênalti revelam uma profunda hipocrisia: são celebrados como europeus na vitória, mas reduzidos a imigrantes na derrota. O episódio, inserido em um aumento de abusos online documentado pela FIFA, gerou pedidos de punição e um acerto de contas com o racismo persistente no futebol.

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O serviço de proteção de redes sociais da FIFA contabilizou 89 mil postagens abusivas durante a fase de grupos, um aumento de treze vezes em relação ao torneio anterior. Os números evidenciam uma escalada acentuada do assédio online contra jogadores e equipes.

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