
O enigma do corte ‘unrated’ e a fábula de um terror de 750 mil dólares que já rendeu 370 milhões
Enquanto fãs perscrutam cada fotograma da versão digital de ‘Obsession’ em busca de uma violência prometida, o filme de Curry Barker consolida-se como o fenómeno global que desbancou blockbusters milionários.
Na madrugada de terça-feira, quando ‘Obsession’ aterrou nas plataformas de streaming, um exercício minucioso e quase forense começou em fóruns e redes sociais. O Apple TV listava uma versão ‘unrated’ do filme, a mesma que, segundo os produtores, devolveria os segundos de brutalidade que o conselho de classificação etária obrigara a cortar: o rosto de Sarah a ser esmagado por Nikki com uma violência tão explícita que deixava a personagem ainda viva, a gorgolejar. Só que, após uma comparação obsessiva com a cópia para maiores de 18 anos disponível na Amazon, os espectadores não encontravam diferença nenhuma. A duração era idêntica, o número de pancadas era o mesmo, e o som da agonia, se existia, dissolvia-se num murmúrio impercetível. O mistério do corte fantasma tornou-se, em poucas horas, a primeira lenda urbana de um filme que já nasceu a desafiar as leis da gravidade comercial.
A história que Curry Barker, um realizador de 26 anos vindo do YouTube e das curtas-metragens de terror, pôs de pé é de uma simplicidade desarmante. Bear, um funcionário solitário de uma loja de música, encontra um artefacto de inspiração new age chamado ‘One Wish Willow’ e pede que a colega por quem é apaixonado, Nikki, o ame mais do que a qualquer pessoa no mundo. O desejo cumpre-se, mas o amor transfigura-se numa possessão que a imprensa árabe descreveu como um “pesadelo longo do qual esperamos acordar a qualquer instante”. O que começa como uma comédia romântica tímida converte-se num terror psicológico sufocante, filmado quase sempre de noite, com um elenco reduzido e uma sensação de que o mundo inteiro foi comprimido até caber numa sala. A crítica libanesa notou que, abstraindo de alguns traços da personagem americana, a história poderia desenrolar-se “na China, no Senegal ou em Itália”, tal é a sua nudez contextual.
Enquanto ‘Obsession’ escalava de um orçamento de 750 mil dólares para uma receita global que já ultrapassa os 370 milhões, o mesmo fim de semana de estreia oferecia um contraponto amargo. ‘Supergirl’, a aposta do DC Studios orçada em 878 milhões de reais só em produção, abria nos cinemas brasileiros com números que a imprensa classificou como “aquém do esperado”: 324 milhões de reais em bilheteira mundial, um valor que, descontados os custos de marketing, acendia alertas. Em Itália, o jornal ‘Il Giornale’ registava uma abertura modesta de 630 mil euros, atrás da imparável ‘Toy Story 5’, e perguntava-se se o filme não seria “mais um filme de super-heróis”. A fábula de David e Golias, tantas vezes invocada na mitologia do cinema independente americano, materializava-se com uma nitidez rara: de um lado, a máquina pesada de um estúdio; do outro, um jovem que, como escreveu um analista de Beirute, “vem com um filme diferente logo na sua primeira experiência”, exibindo uma confiança que funciona como blindagem contra o fracasso.
O eco do fenómeno não se mede apenas em dólares. Na Indonésia, o desfecho trágico — com Nikki a regressar ao próprio corpo apenas para encontrar três cadáveres à sua volta, depois de o sacrifício de Bear quebrar a maldição — gerou um intenso debate sobre a possibilidade de uma sequela, alimentado pela revelação da atriz Inde Navarrette de que o argumento original a matava também. No Bangladesh, a chegada do filme ao streaming foi notícia de primeira página nos cadernos de cultura, celebrando a trajetória de um realizador que antes publicava as suas obras gratuitamente no YouTube. Observadores em Lisboa notam que ‘Obsession’ chega num momento em que o público parece premiar a escassez de meios transformada em atmosfera, um regresso à “fonte primeira do cinema”, como se disse no mundo árabe, onde a imagem convence sem necessidade de aparato.
Resta a imagem de uma legião de fãs a congelar fotogramas no ecrã, à procura de um gorgolejo que talvez nunca tenha existido. E, nos créditos que ainda hão de vir, a promessa de um ‘easter egg’ no próximo filme de Barker, ‘Anything but Ghosts’, onde a sombra de Nikki voltará a insinuar-se, como uma obsessão que o ecrã não consegue exorcizar.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O filme de terror de baixo orçamento Obsession, dirigido pelo criador do YouTube Curry Barker, tornou-se um fenômeno de bilheteria, arrecadando mais de 370 milhões de dólares em todo o mundo. Agora está disponível em streaming, com uma versão sem censura que oferece uma experiência mais violenta e completa.
O filme Obsession, um terror sarcástico e perturbador, realizou um milagre de bilheteria, levantando questões filosóficas sobre desejos e suas consequências. O diretor, vindo do YouTube, afirma sua presença com este conto de fadas sombrio.
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