
Crise de memórias DRAM provocada pela IA duplica preços e atinge consumidores globais
A procura dos centros de dados por chips de alto débito desvia capacidade de produção, encarece computadores, telemóveis e automóveis, e desencadeia investigações antitrust nos EUA.
O preço das memórias DRAM, componente essencial em computadores, servidores e smartphones, duplicou em 2025 e voltou a subir entre 40% e mais de 90% no primeiro trimestre de 2026, segundo a consultora taiwanesa TrendForce. A Microsoft aumentou o preço da Xbox pela terceira vez em 13 meses, a Apple subiu os valores de Macs e iPads em centenas de dólares e fabricantes de automóveis enfrentam custos de chips que chegaram a encarecer 180%. A causa imediata não é uma catástrofe natural, mas a voracidade dos centros de dados que sustentam a inteligência artificial.
A indústria global de memórias, controlada em 95% por três empresas — Samsung, SK Hynix e Micron —, reorientou mais de 80% da sua capacidade avançada para produzir memória de alto débito (HBM), essencial para os processadores de IA. Esta migração comprime a oferta de DRAM convencional, enquanto as grandes tecnológicas asseguram contratos plurianuais que já comprometem 40% a 50% da produção futura. A pressão alastra-se a montante: condensadores, semicondutores de potência e até gases industriais entram em ciclos de aumento de preços, revelam analistas de Xangai. A concentração geográfica da produção — mais de 60% na Ásia — torna a cadeia vulnerável, e os novos investimentos, como o plano sul-coreano de 520 mil milhões de dólares ou os 200 mil milhões da Micron nos EUA, só trarão capacidade significativa a partir de 2027.
O impacto no consumo é imediato. A IDC prevê uma quebra de 11,3% nas expedições mundiais de PCs em 2026, com o quarto trimestre a cair 20% em termos homólogos. Nos EUA, uma ação coletiva antitrust contra os três fabricantes alega manipulação da escassez, enquanto reguladores europeus acompanham o caso. Do lado laboral, o efeito da IA é mais matizado: um estudo das empresas Ramp e Revelio Labs, que acompanhou 22 mil empresas norte-americanas, mostra que as que mais investem em IA aumentaram o emprego em 10,2% em dois anos, incluindo contratações de entrada, mas licenciados em ciências da computação de universidades de prestígio relatam dificuldades crescentes, com a Meta a gerar 95% do novo código por IA.
A pressão sobre as redes elétricas é outra frente de tensão. Nos EUA, as fusões e aquisições no setor elétrico atingiram um recorde de 203,6 mil milhões de dólares nos primeiros cinco meses de 2026, impulsionadas pela necessidade de financiar a expansão para centros de dados. O operador da rede do Texas contabiliza 438 GW de pedidos de interligação, quase 90% de centros de dados, mas os prazos de construção de infraestruturas de rede alongam-se por uma década. A Agência Internacional de Energia alerta que mais de 2.500 GW de projetos aguardam ligação à rede a nível mundial.
O próximo marco a observar são as negociações de contratos de memória para o terceiro trimestre, que analistas preveem que tragam novos aumentos de 40% a 50%. Paralelamente, a Comissão Federal de Regulação de Energia dos EUA (FERC) emitiu ordens em junho para que os operadores de rede justifiquem o tratamento dado a grandes cargas, sinalizando um escrutínio regulatório que pode redefinir o ritmo da expansão da infraestrutura digital.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O pesado investimento corporativo em IA não está provocando demissões em massa; as empresas que mais gastam estão contratando mais rapidamente, inclusive para funções de entrada. No entanto, a corrida por infraestrutura está sobrecarregando as redes elétricas e agravando a escassez de chips de memória, elevando os preços dos eletrônicos de consumo. O próprio trabalho está mudando: a IA reduz atritos, mas expande tarefas, borra fronteiras de tempo e aumenta a multitarefa.
A verdadeira competição pela IA não é sobre algoritmos, mas sobre infraestrutura física: fábricas de semicondutores, centros de dados e redes em nuvem. Os gargalos na cadeia de suprimentos estão se espalhando das GPUs para os materiais a montante, provocando aumentos de preços que ameaçam a construção global da IA. É uma luta geopolítica pelo domínio do século XXI, onde o controle sobre os insumos de fabricação se torna tão decisivo quanto os mercados de energia já foram.
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