
Calor extremo na Europa expõe despreparo e inflama guerra cultural do ar-condicionado
Com temperaturas acima dos 40°C e mais de mil mortos em França numa semana, o continente debate-se entre a urgência de refrigerar e as metas climáticas.
A vaga de calor que varreu a Europa no final de junho de 2026, com temperaturas acima dos 40°C, causou mais de mil mortos em França numa semana e revelou uma fragilidade estrutural: apenas um quarto dos lares europeus tem ar-condicionado, contra 90% nos EUA. O edificado, historicamente desenhado para conservar calor, mostra-se inadequado para dissipar temperaturas extremas. A Europa aquece ao dobro da média global desde os anos 1980 e o excesso de mortalidade por calor já supera o de outras regiões ricas.
A procura de climatização disparou. As vendas de aparelhos na Alemanha subiram 37% em maio, e fabricantes asiáticos reportam envios recorde para França e Espanha. Mas a massificação pressiona redes elétricas já sob tensão: a AIE prevê um crescimento anual de 2% na procura de eletricidade na UE até 2030, impulsionado pelo arrefecimento. Em França, o consumo noturno durante ondas de calor já aumentou 25%, enquanto centrais térmicas e nucleares perdem eficiência com a menor disponibilidade de água para refrigeração.
O debate tornou-se político e cultural. Em Paris, a vice-presidente da câmara atribuiu as temperaturas recorde às emissões históricas dos EUA, rejeitando as críticas de americanos que ridicularizam a falta de ar-condicionado. À direita, Marine Le Pen prometeu um “grande plano de climatização”; à esquerda, cidades como Gante chegaram a desaconselhar o uso dos aparelhos. No terreno, o impasse trava soluções: em Paris, um doente dependente de ventilação luta há dois anos na justiça para instalar uma unidade, bloqueada por vizinhos que invocam ruído.
Cientistas como Radhika Khosla, da Universidade de Oxford, defendem que o ar-condicionado é a ferramenta mais eficaz para proteger vidas durante picos de calor, mas sublinham que deve ser combinado com melhor desenho urbano e isolamento passivo. A União Europeia, que se apresenta como líder climática global, enfrenta o dilema entre proteger populações vulneráveis e cumprir metas de emissões. O próximo teste será a resposta dos operadores de rede ao longo do verão de 2026, à medida que novas vagas de calor desafiam um sistema construído para o frio.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A recusa europeia em adotar o ar condicionado é retratada como uma cruzada moral, mas é uma necessidade prática no calor extremo. O verdadeiro fracasso não é o uso do ar condicionado, mas o discurso que envergonha quem busca alívio. É hora de normalizar o ar condicionado como ferramenta de sobrevivência, não como símbolo do excesso americano.
Um debate surreal está a decorrer na Europa, onde alguns culpam os ambientalistas pelo sofrimento das ondas de calor por se oporem ao ar condicionado. Esta retórica ignora convenientemente décadas de avisos sobre consumo de energia e adaptação climática. O verdadeiro problema não é uma proibição moral do AC, mas a necessidade de soluções de arrefecimento sustentáveis.
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