
Cimeira de Washington sobre 'terrorismo de esquerda' expõe fissuras transatlânticas e pressão sobre o México
Convocada por Marco Rubio para 15 de julho, a reunião sobre o alegado ressurgimento do terrorismo de extrema‑esquerda provoca reservas em capitais europeias, hesitação em Roma e silêncio no México, enquanto Trump agita o espectro do 'comunismo' antes das eleições intercalares.
O secretário de Estado norte‑americano, Marco Rubio, convocou para 15 e 16 de julho, em Washington, uma cimeira internacional dedicada ao que a administração Trump classifica como o 'ressurgimento do terrorismo político transnacional de extrema‑esquerda'. Foram convidados representantes de mais de 60 governos da América, Europa e Ásia. A iniciativa, que inclui um painel sobre as redes violentas 'Antifa', gerou desconforto imediato em várias chancelarias europeias e latino‑americanas, levando a uma adesão cautelosa e, em alguns casos, a recuos de última hora.
Na perspetiva de Washington, a cimeira responde a uma ameaça que, segundo fontes do Departamento de Estado, tem sido subestimada desde os atentados de 11 de setembro de 2001, quando o foco se concentrou no extremismo islâmico. O presidente Donald Trump reforçou essa narrativa ao classificar os movimentos antifascistas como 'organização terrorista interna' e ao alertar para um 'perigo comunista' que, nos seus comícios, associa a candidatos democratas socialistas como Alexandria Ocasio‑Cortez e Bernie Sanders. A ofensiva coincide com a aproximação das eleições intercalares de novembro e com uma vaga de vitórias de progressistas em primárias democratas em Nova Iorque e no Colorado, num momento em que as sondagens indicam uma quebra de popularidade de Trump para valores entre 37% e 40%.
A resposta europeia foi fragmentada. Diplomatas citados pelo Washington Post descreveram a convocatória como um 'novo macartismo' e sublinharam que, em nenhum país da União Europeia, o terrorismo de extrema‑esquerda é considerado uma ameaça prioritária. O governo italiano, após uma primeira recusa da Farnesina, reverteu a posição por intervenção direta de Giorgia Meloni e enviará um subsecretário do Interior, o leghista Nicola Molteni. A decisão foi criticada pelas oposições, que a interpretam como um alinhamento com a agenda ideológica de Trump, apesar das tensões recentes entre Roma e Washington. Em Lisboa e noutras capitais, a opção por um perfil baixo, limitado à representação diplomática, foi a regra. O Brasil, convidado de maneira especial juntamente com o México, não divulgou até ao momento uma posição oficial, segundo fontes diplomáticas em Brasília.
Para o México, a cimeira coloca um dilema particularmente sensível. A administração Trump tem pressionado para classificar os cartéis mexicanos como organizações terroristas e já sinalizou a existência de supostos vínculos entre políticos mexicanos e o crime organizado. A ausência de uma confirmação pública da presença mexicana, notada por observadores na Cidade do México, reflete o receio de que a participação possa ser instrumentalizada para legitimar uma futura designação de 'narcoterrorismo' e para intensificar a pressão bilateral no âmbito do T‑MEC. A cimeira decorrerá sob a organização de Sebastian Gorka, antigo comentador com ligações a meios da direita radical norte‑americana, e os seus resultados poderão influenciar a redefinição da doutrina de segurança internacional dos Estados Unidos, com eventuais consequências para a cooperação policial e de inteligência com a América Latina e a Europa.
| Imprensa europeia continental | −0.60 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa latino-americana | 0.00 | neutral |
A Europa continental denuncia a instrumentalização eleitoral do terrorismo por Trump e critica a Itália por ceder às pressões dos EUA.
Constrói-se uma narrativa de ameaça vermelha para justificar ataques políticos internos, e destaca-se a contradição entre a retórica de Trump e a realidade de um perigo marginal.
Omite qualquer reconhecimento de violência concreta de extrema-esquerda que pudesse justificar a cúpula, concentrando-se apenas nos motivos políticos de Trump.
A América Latina observa com distanciamento a manobra de Washington, analisando possíveis consequências estratégicas sem se alinhar à retórica de Trump.
Adota-se um tom descritivo e evita-se tomar partido, apresentando o evento como um fato geopolítico a ser avaliado.
Omite o debate interno europeu e as críticas à participação italiana, bem como o contexto eleitoral da retórica de Trump.
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