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Geopolítica & Políticadomingo, 21 de junho de 2026

Partido de Abiy Ahmed obtém vitória esmagadora em eleições marcadas por conflitos e repressão

Com quase 90% das cadeiras, o Partido da Prosperidade reforça o controle do primeiro-ministro etíope, enquanto a oposição denuncia fraude e a instabilidade regional se agrava.

A Comissão Eleitoral Nacional da Etiópia anunciou neste domingo que o Partido da Prosperidade (PP), do primeiro-ministro Abiy Ahmed, conquistou 438 dos 501 assentos declarados na Câmara dos Representantes do Povo, correspondendo a cerca de 90% das cadeiras disputadas nas legislativas de 1.º de junho. O resultado, amplamente antecipado, garante a recondução de Abiy para um novo mandato de cinco anos quando o Parlamento se reunir em outubro. As eleições realizaram-se num contexto de forte insegurança: 143 assembleias de voto não chegaram a abrir devido a confrontos armados, e a região setentrional do Tigré, palco de uma guerra civil que fez centenas de milhares de mortos entre 2020 e 2022, foi excluída do escrutínio pela segunda vez consecutiva, deixando 38 círculos eleitorais sem representação federal.

A oposição e organizações de direitos humanos denunciam que o pleito decorreu num clima de medo e intimidação, sem caráter livre e equitativo. O dirigente oposicionista Merara Gudina qualificou a votação de «farsa» e afirmou que o resultado agravará a já «deteriorada estabilidade do país». Yitayal Assefa, candidato derrotado do Partido da Unidade de Toda a Etiópia, declarou à Associated Press que os adversários foram assediados e que «nunca tiveram hipóteses». A missão de observação da União Africana, embora confinada maioritariamente a Adis Abeba, contribuiu para uma aparência de legitimidade internacional, mas foi criticada por não ter mobilizado efetivos suficientes no terreno. As autoridades eleitorais, por seu lado, sustentam ter mantido «neutralidade institucional».

A vitória de Abiy surge num momento de aguda fragmentação interna e de tensões regionais renovadas. As milícias nacionalistas Fano, na região de Amara, e o Exército de Libertação Oromo, em Oromia, rejeitaram o processo eleitoral e prosseguem os ataques contra as forças federais. A guerra no Tigré, que terminou com um acordo de paz em novembro de 2022, continua a projetar incerteza: o governo federal e o partido dominante tigréano (TPLF) trocam acusações de violação do cessar-fogo, enquanto a vizinha Eritreia, outrora aliada de Adis Abeba, alinha-se agora com as forças tigréanas, elevando o risco de um novo conflito armado. A disputa pelo acesso ao mar Vermelho, ambição manifestada por Abiy desde a independência da Eritreia em 1993, adensa o ambiente de hostilidade bilateral. Para além disso, somam-se relatos de envolvimento etíope na guerra civil sudanesa, o que, segundo analistas de segurança como Cameron Hudson, ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA, cria «um coquetel tóxico com potencial de alastrar pela região».

Na perspetiva de círculos diplomáticos em Lisboa e Brasília, o resultado eleitoral etíope consolida o poder de um líder que, apesar do Nobel da Paz de 2019, tem sido cada vez mais acusado de deriva autoritária e de repressão de jornalistas e vozes dissidentes. A ausência de alternativas políticas viáveis e o esvaziamento do parlamento como espaço de fiscalização democrática preocupam parceiros internacionais com interesses estratégicos no Corno de África, incluindo os países lusófonos da região, atentos ao risco de contágio da instabilidade. Com o novo Parlamento a reunir entre finais de setembro e início de outubro, Abiy Ahmed verá formalizado um mandato que, longe de apaziguar, deverá exacerbar as divisões internas e os desafios de segurança que assolam a segunda nação mais populosa de África.

Como a mesma história é contada em outros lugares.

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The report highlights that while Abiy Ahmed's party won a landslide, the election was marred by conflict and repression, with little opposition participation, raising fears of further instability.

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The European press varies, with some outlets describing the election as expected and noting the lack of surprises, while others critically highlight the transformation of Abiy from a reformer to a war leader, pointing to the ongoing conflict in Tigray.

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domingo, 21 de junho de 2026

Partido de Abiy Ahmed obtém vitória esmagadora em eleições marcadas por conflitos e repressão

Com quase 90% das cadeiras, o Partido da Prosperidade reforça o controle do primeiro-ministro etíope, enquanto a oposição denuncia fraude e a instabilidade regional se agrava.

A Comissão Eleitoral Nacional da Etiópia anunciou neste domingo que o Partido da Prosperidade (PP), do primeiro-ministro Abiy Ahmed, conquistou 438 dos 501 assentos declarados na Câmara dos Representantes do Povo, correspondendo a cerca de 90% das cadeiras disputadas nas legislativas de 1.º de junho. O resultado, amplamente antecipado, garante a recondução de Abiy para um novo mandato de cinco anos quando o Parlamento se reunir em outubro. As eleições realizaram-se num contexto de forte insegurança: 143 assembleias de voto não chegaram a abrir devido a confrontos armados, e a região setentrional do Tigré, palco de uma guerra civil que fez centenas de milhares de mortos entre 2020 e 2022, foi excluída do escrutínio pela segunda vez consecutiva, deixando 38 círculos eleitorais sem representação federal.

A oposição e organizações de direitos humanos denunciam que o pleito decorreu num clima de medo e intimidação, sem caráter livre e equitativo. O dirigente oposicionista Merara Gudina qualificou a votação de «farsa» e afirmou que o resultado agravará a já «deteriorada estabilidade do país». Yitayal Assefa, candidato derrotado do Partido da Unidade de Toda a Etiópia, declarou à Associated Press que os adversários foram assediados e que «nunca tiveram hipóteses». A missão de observação da União Africana, embora confinada maioritariamente a Adis Abeba, contribuiu para uma aparência de legitimidade internacional, mas foi criticada por não ter mobilizado efetivos suficientes no terreno. As autoridades eleitorais, por seu lado, sustentam ter mantido «neutralidade institucional».

A vitória de Abiy surge num momento de aguda fragmentação interna e de tensões regionais renovadas. As milícias nacionalistas Fano, na região de Amara, e o Exército de Libertação Oromo, em Oromia, rejeitaram o processo eleitoral e prosseguem os ataques contra as forças federais. A guerra no Tigré, que terminou com um acordo de paz em novembro de 2022, continua a projetar incerteza: o governo federal e o partido dominante tigréano (TPLF) trocam acusações de violação do cessar-fogo, enquanto a vizinha Eritreia, outrora aliada de Adis Abeba, alinha-se agora com as forças tigréanas, elevando o risco de um novo conflito armado. A disputa pelo acesso ao mar Vermelho, ambição manifestada por Abiy desde a independência da Eritreia em 1993, adensa o ambiente de hostilidade bilateral. Para além disso, somam-se relatos de envolvimento etíope na guerra civil sudanesa, o que, segundo analistas de segurança como Cameron Hudson, ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA, cria «um coquetel tóxico com potencial de alastrar pela região».

Na perspetiva de círculos diplomáticos em Lisboa e Brasília, o resultado eleitoral etíope consolida o poder de um líder que, apesar do Nobel da Paz de 2019, tem sido cada vez mais acusado de deriva autoritária e de repressão de jornalistas e vozes dissidentes. A ausência de alternativas políticas viáveis e o esvaziamento do parlamento como espaço de fiscalização democrática preocupam parceiros internacionais com interesses estratégicos no Corno de África, incluindo os países lusófonos da região, atentos ao risco de contágio da instabilidade. Com o novo Parlamento a reunir entre finais de setembro e início de outubro, Abiy Ahmed verá formalizado um mandato que, longe de apaziguar, deverá exacerbar as divisões internas e os desafios de segurança que assolam a segunda nação mais populosa de África.

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The report highlights that while Abiy Ahmed's party won a landslide, the election was marred by conflict and repression, with little opposition participation, raising fears of further instability.

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The European press varies, with some outlets describing the election as expected and noting the lack of surprises, while others critically highlight the transformation of Abiy from a reformer to a war leader, pointing to the ongoing conflict in Tigray.

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