
Morre Ramiro Valdés, um dos últimos comandantes da Revolução Cubana, aos 94 anos
Figura central do castrismo, Valdés foi fundador do serviço de inteligência G2 e atuou até o fim como vice-primeiro-ministro; governo lamenta perda, enquanto oposição aponta legado repressivo.
O comandante Ramiro Valdés Menéndez, um dos protagonistas da geração histórica da Revolução Cubana e próximo aos irmãos Fidel e Raúl Castro, morreu na manhã de domingo, 21 de junho de 2026, aos 94 anos. O anúncio foi feito pelo presidente Miguel Díaz-Canel em redes sociais, sem revelar a causa do óbito. Valdés ocupava o cargo de vice-primeiro-ministro e detinha os títulos honoríficos de “Herói da República de Cuba” e “Comandante da Revolução”. Com a sua morte, restam apenas dois integrantes da expedição do iate Granma: Raúl Castro, de 95 anos, e Guillermo García Frías, de 98.
Nascido em Artemisa em 1932, Valdés integrou o assalto ao quartel Moncada, em 1953, marco inicial da luta contra Fulgencio Batista. Exilou-se no México ao lado de Fidel Castro e foi um dos 82 combatentes que zarparam no Granma em 1956, sobrevivendo à travessia apenas 12. Nas serras da Sierra Maestra, combateu sob o comando de Ernesto “Che” Guevara, participando da decisiva batalha de Santa Clara. Após o triunfo revolucionário, assumiu o Ministério do Interior e fundou a Direção Geral de Inteligência, conhecida como G2, que consolidou os mecanismos de vigilância e controlo político da ilha. Ao longo de mais de seis décadas, exerceu ainda as funções de vice-presidente, ministro das Comunicações e membro do Bureau Político do Partido Comunista.
O falecimento de Valdés suscitou reações contrastantes. O governo cubano e a imprensa oficial, como o Granma e o portal Cubadebate, enalteceram a sua “lealdade absoluta” à liderança de Fidel e Raúl, a “exemplar consagração ao serviço da pátria” e o papel na resistência às “investidas imperialistas”. Na América Latina, a nota de pesar da embaixada russa em Havana ressaltou a “dedicação exemplar” do comandante. Já para amplos setores da oposição cubana, tanto na ilha quanto no exílio, e de organizações internacionais de direitos humanos, Valdés encarnou a face mais dura do castrismo. Fontes da diáspora em Miami e na Europa, especialmente veículos espanhóis como El Mundo e La Nación, recordaram o seu papel na criação de campos de trabalho forçado, nos atos de repúdio contra dissidentes e na montagem de um aparelho de perseguição política que perdurou por décadas. Observadores em Portugal e no Brasil destacam que a figura de Valdés condensa a dualidade da revolução cubana: herói para uns, repressor para outros.
A morte ocorre num momento de forte tensão em Cuba, marcado por uma crise económica aguda, escassez de combustível e cortes de energia elétrica — área que Valdés supervisionava diretamente como vice-primeiro-ministro. A sua última aparição pública noticiada foi em trajes militares, apelando à poupança de eletricidade. Nos anos anteriores, assessorara ainda os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro na Venezuela, missão que, segundo oposicionistas de Caracas e analistas em Washington, teria servido para reestruturar os serviços de contrainteligência do país, para além do apoio declarado ao setor energético. Brasília, que mantém relações ambíguas com Havana — com o governo Lula a evitar críticas ao regime e a oposição a denunciar violações —, acompanha a transição geracional no regime sem sinais de mudança na postura diplomática.
O corpo de Valdés deverá ser sepultado em Santa Clara, cidade onde foi declarado cidadão ilustre em 2019. Até ao fecho desta edição, as autoridades não divulgaram detalhes sobre cerimónias fúnebres. A sua partida acelera o ocaso do núcleo histórico de comandantes que moldaram a ilha desde 1959, num contexto em que a continuidade do sistema unipartidário assenta cada vez mais em figuras que não partilharam a epopeia fundacional da revolução.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A imprensa chinesa apresenta Valdés como um herói venerado da Revolução Cubana, um dos últimos comandantes sobreviventes que embarcaram no Granma e se mantiveram fiéis aos Castro, celebrado pelo presidente como uma figura paterna.
A imprensa da Europa continental retrata Valdés como um comandante histórico, mas, acima de tudo, como um dos grandes repressores da revolução cubana, destacando seu papel na segurança do Estado e o longo declínio do regime castrista.
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