
O homem que ouvia o futuro: Clive Davis, arquitecto de estrelas, morre aos 94 anos
Morreu o executivo que descobriu Whitney Houston, Janis Joplin e Bruce Springsteen, deixando uma marca indelével na cultura popular global.
No verão de 1967, um advogado de 35 anos, recém-nomeado presidente da Columbia Records, entrou no Festival Pop de Monterey sem saber que sairia transformado. Clive Davis, formado em Harvard e alheio ao vocabulário do rock, viu Janis Joplin incendiar o palco com o Big Brother and the Holding Company. Anos mais tarde, descreveria a sensação: “a espinha formigava, os braços vibravam”. Naquela noite, assinou contrato com a cantora e iniciou uma trajetória que redefiniria a indústria fonográfica.
Davis morreu na segunda-feira, aos 94 anos, no seu apartamento em Manhattan, após uma hospitalização por problemas respiratórios. A família divulgou um comunicado em que o descreve como “a lenda icónica cuja visão, instinto e busca incansável pela excelência moldaram a banda sonora de inúmeras vidas”. A sua carreira, que atravessou mais de seis décadas, confunde-se com a própria história da música popular: da Columbia à Arista, da J Records à direção criativa da Sony, Davis descobriu, orientou ou revitalizou artistas como Bruce Springsteen, Aretha Franklin, Alicia Keys, Santana, Billy Joel e, acima de todos, Whitney Houston.
O seu método não se limitava a farejar talento bruto. Davis falava de um “banco de três pernas” — canção, interpretação, produção — e aplicava uma atenção forense aos detalhes, herança da sua formação jurídica. Insistiu, contra a oposição do produtor David Foster, que “I Will Always Love You” abrisse com quarenta segundos de voz a cappella; o single tornou-se um dos mais vendidos de sempre. Também soube reanimar carreiras adormecidas: convenceu Carlos Santana a gravar “Supernatural” com vozes contemporâneas, álbum que arrebatou nove Grammys em 2000, e levou Rod Stewart a trocar o rock pelo cancioneiro americano clássico. A sua intuição nem sempre foi infalível — recusou contratar Meat Loaf —, mas a lista de acertos é um who’s who da música do século XX.
A notícia da morte ecoou de imediato nas redes sociais e nos media de todo o mundo, incluindo no Brasil e em Portugal, onde muitos dos artistas que ele projetou — de Santana a Whitney Houston — conquistaram audiências fiéis. Bruce Springsteen recordou o executivo que, aos 22 anos do cantor, o tratou “com o mesmo respeito e gentileza de sempre”. Patti Smith agradeceu “meio século de amor e apoio”. Barry Manilow, que com ele trabalhou durante cinquenta anos, resumiu: “Para o Clive, nunca foi negócio. Era família.” A sua festa anual na véspera dos Grammys tornou-se um rito de passagem para a elite cultural americana; Barack Obama, em mensagem de vídeo na edição deste ano, afirmou que “o talento do Clive sempre foi ver e ouvir o que os outros não veem”.
Talvez a imagem mais duradoura não seja a do magnata de fato impecável nas galas, mas a de um homem que, já octogenário, continuava a procurar a próxima voz capaz de parar o tempo. Davis acreditava que a música era “um ingrediente indispensável à vida humana”, imune às revoluções tecnológicas. O seu legado não está apenas nos discos de platina ou nos Grammys, mas na convicção de que, por detrás de cada canção que nos acompanha, há um instante de escuta atenta — um ouvido de ouro que soube reconhecer, antes de todos, o som do futuro.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A indústria musical lamenta um gigante que esculpiu o som popular por mais de cinquenta anos. Clive Davis, o executivo do ouvido de ouro, morreu aos 94 anos após uma breve hospitalização. Seu legado como arquiteto de carreiras de Whitney Houston a Bruce Springsteen é celebrado como uma marca cultural duradoura.
O executivo musical Clive Davis morreu aos 94 anos, segundo relatos. Ele havia sido hospitalizado com problemas respiratórios. A breve nota lembra sua passagem pela Columbia Records e sua abertura a diversos gêneros.
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