
Do vapor dos spas à roleta: o novo mapa do lazer em tempos de incerteza
Enquanto o turismo doméstico russo e os serviços brasileiros encolhem, casinos, termas e viagens a destinos como Tajiquistão e Tóquio revelam uma recomposição dos gastos com lazer.
Na penumbra húmida de um complexo termal nos arredores de Moscovo, o vapor de eucalipto envolve corpos que trocaram as praias distantes pelo calor das saunas locais. Em junho, o tíquete mediano desses refúgios de bem-estar atingiu 4.019 rublos, um salto de 13% em relação ao ano anterior, enquanto o número de visitas crescia 19%. A cena repete-se em casinos como o Krasnaya Polyana, em Sochi, onde 466,3 mil pessoas passaram as portas no primeiro semestre de 2026 — 5,7% mais do que em igual período de 2025. O tilintar das fichas e o murmúrio das roletas tornaram-se a banda sonora de um país que, confrontado com a escassez de combustível na Crimeia e as taxas de juro elevadas, redesenha o seu lazer à escala do bairro.
O movimento contrasta com o retrato geral do turismo interno russo. A Associação de Operadores Turísticos da Rússia calcula que as viagens pelo país caíram 3% no primeiro semestre, para 40,1 milhões de deslocações, depois de terem crescido 7% um ano antes. Operadores como a Travelata reportam quebras muito mais acentuadas no segmento organizado. Em Moscovo, analistas associam o recuo a uma “conduta de poupança” dos cidadãos, que preferem manter o dinheiro em depósitos bancários, e às dificuldades logísticas que tornaram imprevisível o planeamento de deslocações mais longas. Ainda assim, o ímpeto de gastar não desapareceu: apenas se concentrou em experiências de proximidade, das salas de massagem aos parques aquáticos, num país onde o jogo é legal apenas em zonas especiais e que acaba de aprovar a criação de uma nova área de casinos na República de Altai.
Do outro lado do Atlântico, o setor de serviços brasileiro também deu sinais de arrefecimento. Em maio, o volume de serviços recuou 0,4% face a abril, frustrando a expectativa de alta, e o índice de atividades turísticas caiu na mesma proporção, depois de ter disparado 4,1% no mês anterior. Os recuos mais expressivos foram registados em São Paulo, Santa Catarina, Pernambuco e Paraná. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística sublinha que o segmento turístico opera 2,5% abaixo do pico histórico alcançado em dezembro de 2024. Na perspetiva de Brasília, o desempenho reflete o aperto monetário — a Selic mantém-se em 14,25% — e uma moderação da atividade económica, apesar dos estímulos governamentais ao consumo e de um mercado de trabalho ainda aquecido.
Enquanto os mercados domésticos de Brasil e Rússia enfrentam ventos contrários, certos corredores internacionais florescem. O fluxo de turistas russos para o Tajiquistão aumentou 25% no primeiro semestre, para 175,8 mil visitantes, e para o Vietname disparou 2,8 vezes, colocando a Rússia como terceiro maior emissor de viajantes para o país asiático. Em Tóquio, o gasto médio dos visitantes estrangeiros atingiu 199.874 ienes por viagem em 2025, uma subida de 9,6%, com os turistas chineses a liderarem as despesas, apesar de uma ligeira retração face ao ano anterior. A capital japonesa, que recolheu os dados nos aeroportos de Haneda e Narita, viu a fatia da hotelaria e das lembranças consumir a maior parte dos orçamentos.
No final da tarde, enquanto as névoas artificiais dos spas de Moscovo se dissipam e as roletas de Sochi continuam a girar, as areias de Pernambuco recebem menos passos do que em dezembros passados. A geografia do lazer fragmenta-se, empurrada por juros, combustíveis e desejos que ora se recolhem ao quarteirão, ora atravessam continentes em busca de um outro vapor.
| Imprensa russa e CEI | +0.70 | aligned |
|---|---|---|
| Imprensa japonesa-coreana | −0.20 | neutral |
A Rússia projeta o sucesso do turismo interno em cassinos, spas e destinos próximos como prova da resiliência e adaptabilidade do setor.
Ao destacar apenas os segmentos em crescimento (cassinos, spas, Tajiquistão) e omitir o declínio geral, a narrativa cria uma impressão de sucesso generalizado.
A queda geral de 3% no turismo interno e o colapso de 31% nos passeios organizados são omitidos, o que contradiria o quadro positivo.
A queda de visitantes estrangeiros no Japão é um dado neutro explicado por fatores geopolíticos, não um reflexo das escolhas turísticas russas.
Ao atribuir a queda às relações com a China e às tensões no Oriente Médio, a narrativa normaliza o declínio como um fenômeno global, não como um fracasso interno.
O artigo não menciona especificamente turistas russos, nem conecta a queda ao aumento do turismo interno russo, que poderia ser um fator contribuinte.
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