
O fenómeno Haaland: do guaxinim empalhado à sósia russa, o Mundial que extravasou o relvado
A Copa do Mundo de 2026 transformou o avançado norueguês num ícone cultural global, impulsionando carreiras improváveis, esgotando lojas de taxidermia e revelando uma nova geografia da fama digital.
Quando Erling Haaland desembarcou em Oslo, trazia na bagagem de mão um guaxinim empalhado que segurava uma garrafa vazia de gin. A imagem, captada à saída do avião da seleção norueguesa, correu o planeta em minutos. O souvenir, comprado por 750 dólares numa loja de Dallas especializada em artigos do Oeste americano, esgotou em poucos dias. A Wild Bill’s Western Store, que nunca antes enviara encomendas para fora dos Estados Unidos, viu-se subitamente a expedir guaxinins taxidermizados para a Europa e para a Ásia. O gesto banal de um futebolista de 25 anos revelava o alcance de um fenómeno que já não cabia nos estádios.
A Copa do Mundo de 2026 consagrou Haaland como goleador — sete golos, dois deles ao Brasil nos oitavos de final —, mas foi a sua personalidade desarmante que o transformou num ícone transversal. Enquanto a Noruega caía nos quartos de final diante da Inglaterra, o avançado do Manchester City ganhava 24 milhões de seguidores no Instagram, aproximando-se dos 70 milhões. Só o guarda-redes cabo-verdiano Vozinha, herói de um empate sem golos contra a Espanha, o superou em novos fãs: saltou de 50 mil para mais de 29 milhões, num fenómeno que, visto de Brasília ou de Lisboa, ilustra como o torneio se tornou uma fábrica de celebridades instantâneas. A modelo russa Anastasia Kostromitina, de 24 anos, percebeu-o melhor do que ninguém. Durante quatro anos, amigos e familiares brincavam com a sua semelhança física com o norueguês — a testa proeminente, o nariz achatado, os olhos azuis fundos. A 5 de julho, publicou um vídeo no Instagram em que imitava as expressões faciais de Haaland: um sorriso, um olhar, uma careta. Foram mais de seis milhões de “gostos”. “Ao princípio, nem entendia como podia parecer-me com um jogador de futebol”, confessou à AFP. “Agora levo com humor e vivo isto com tranquilidade.”
A vaga de atenção extravasou o universo digital. No sul de Itália, Haaland e a companheira, Isabel Haugseng Johansen, assistiram a um desfile da Dolce & Gabbana em Taormina, ele de blazer branco e um broche de rã dourado, ela com um vestido de cristais translúcidos. A imprensa italiana descreveu a aparição como um momento de consagração do futebolista na moda de luxo, enquanto no México o prodígio Gilberto Mora, de 17 anos, recebia conselhos de Sergio Agüero para não se deixar deslumbrar pelos elogios. Mora, que ganhou 5,7 milhões de seguidores durante o Mundial, tornou-se o sexto jogador com maior crescimento na plataforma, atrás apenas de Vozinha, Haaland, Cristiano Ronaldo, Neymar e Lionel Messi. A diferença para o argentino foi de apenas cem mil seguidores, um dado que, na leitura de analistas brasileiros, sinaliza a emergência de uma nova geração de ídolos capazes de rivalizar com as lendas estabelecidas.
O caso do defesa brasileiro Douglas Santos é ainda mais revelador. Uma campanha orquestrada por influenciadores digitais e pelo canal CazéTV fez o seu perfil saltar de 190 mil para 2,6 milhões de seguidores, um crescimento de quase 1200%. Em Cabo Verde, a explosão de Vozinha foi celebrada como um feito coletivo: o país, terceira nação menos populosa a qualificar-se para um Mundial, viu o seu guarda-redes tornar-se o atleta mais seguido da África lusófona. “Nunca imaginei que a minha exibição me tornasse uma estrela viral”, disse o jogador, prometendo “mais novidades em breve”. A frase, partilhada em vídeo, ecoa a de Kostromitina, que espera que o norueguês veja a sua imitação e “talvez até se ria”.
A história do guaxinim empalhado, entretanto, continua a escrever-se. A loja de Dallas promete repor o stock, enquanto a TSA, a agência de segurança dos transportes norte-americana, esclareceu em tom jocoso que não há qualquer regra que proíba voar com um animal taxidermizado, desde que a companhia aérea o autorize. Haaland, que já dormia com as bolas dos seus hat-tricks como se fossem namoradas, acrescentou um novo capítulo à sua mitologia pessoal. O Mundial acabou, mas o rasto de um futebolista que não tenta posar para as câmaras — “simplesmente sai-lhe assim”, como observou a sua sósia russa — continua a gerar ondas de espanto, negócio e sorrisos muito para lá dos relvados.
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