
Elsa Aguirre, a diva que esbofeteou Pedro Infante, morre aos 95 anos
A atriz mexicana, ícone da Época de Ouro, faleceu em Cuernavaca; um tributo com projeção de filme e exposição fotográfica preserva o seu legado.
Quando Pedro Infante se inclinou para um beijo não previsto no guião, Elsa Aguirre respondeu com uma bofetada. O gesto, recordado pela própria atriz em entrevistas, tornou-se um dos episódios que definiam a personalidade da estrela mexicana, falecida a 14 de julho de 2026, aos 95 anos, em Cuernavaca, Morelos. Apesar da imagem de sedutora que o cinema lhe colara, Aguirre mantinha um controlo férreo sobre o seu espaço — uma mulher que, como confidenciou, nunca foi “noviera”, mas profundamente enamoradiça.
O corpo foi velado numa funerária de Morelos, com um caixão de veludo vermelho rodeado de lírios e duas fotografias da atriz. As quatro enfermeiras que a acompanharam nos últimos meses descreveram um final sereno: “Esteve tranquila, rodeada de amor”, disse uma delas ao programa De Primera Mano. A causa foi uma paragem cardiorrespiratória, agravada pela idade avançada. A cremação, por desejo expresso da atriz, será seguida da dispersão das cinzas num local alto, longe “da matéria”, como confidenciara ao seu afilhado Hassim.
Nascida em Chihuahua em 1930, Elsa Irma Aguirre Juárez estreou no cinema aos 15 anos, após vencer um concurso de beleza. A mãe, de família abastada, terá dito ao vê-la: “Acho que me trocaram esta menina”. Era a única dos cinco irmãos com pele morena, e a alcunha “negrita” marcou uma infância em que se sentiu apartada. Essa mesma singularidade física tornar-se-ia a sua assinatura no grande ecrã. Em mais de 50 filmes, contracenou com Pedro Infante, Jorge Negrete, Dolores del Río e Arturo de Córdova, sob a direção de Emilio Fernández e Roberto Gavaldón. Segundo o investigador Roberto Fiesco, autor de um livro sobre a atriz, ela “encarnava a grande beleza crioula do cinema nacional”. Os seus melodramas chegaram também ao Brasil e a Portugal, onde o cinema mexicano da Época de Ouro conquistara um público fiel.
O Instituto Mexicano de Cinematografia e a Cineteca Nacional organizam um tributo póstumo. A 22 de julho, será exibido “Cuatro noches contigo” (1952), seguido de um conversatório. Em agosto, a Cineteca Nacional Chapultepec inaugura uma exposição com material fotográfico dos acervos do IMCINE e da Filmoteca da UNAM. A secretária da Cultura, Claudia Curiel de Icaza, afirmou que recordar Elsa Aguirre é “preservar as obras que construíram o seu legado e propiciar que novos públicos possam encontrá-las”. Observadores no México notam que a exposição, ao reunir imagens de arquivo, oferece uma ponte entre gerações para uma figura que se retirou dos holofotes em 2004, mas nunca deixou de conceder entrevistas.
Nos últimos anos, em Cuernavaca, a atriz praticava ioga, meditava e seguia uma dieta vegetariana. Dizia que a verdadeira beleza nascia da paz interior. As enfermeiras contaram que ela não permitia que se matasse sequer uma formiga. O caixão vermelho, as flores cor-de-rosa e o silêncio da funerária contrastavam com o rumor dos sets que habitara. Dentro de semanas, as suas cinzas subirão a um lugar alto, como pediu. E, na sala escura da Cineteca, o seu rosto voltará a iluminar-se em “Cuatro noches contigo”, enquanto uma nova plateia descobrirá a mulher que ousou esbofetear Pedro Infante.
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