
Lagarde afirma que zona euro resiste melhor a choques e justifica subida dos juros
Presidente do BCE defende que resiliência construída permite atuar com taxas de juro sem receio de fragmentação financeira, enquanto outras regiões alertam para riscos da IA e da dívida.
A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, declarou no Fórum de Sintra que a zona euro se tornou mais resiliente a choques externos, o que permitiu à instituição subir as taxas de juro este mês pela primeira vez desde 2023 sem provocar tensões financeiras. A decisão, justificada pelo impacto do conflito no Médio Oriente sobre os preços da energia, foi descrita como “robusta” e baseada em projeções e dados em tempo real que, segundo Lagarde, não foram postos em causa pela evolução posterior.
A responsável atribuiu essa capacidade de absorção a um conjunto de reformas: o novo quadro de supervisão bancária europeia, os instrumentos do BCE para evitar a fragmentação dos mercados de dívida soberana e o avanço da transição energética. Sublinhou que a região resistiu ao maior aumento de tarifas dos EUA em quase um século e àquela que a Agência Internacional de Energia classificou como a maior interrupção da oferta de petróleo da história. Na perspetiva de Lisboa, onde o país tem beneficiado da descida dos preços grossistas da eletricidade graças à elevada quota de energias limpas, a análise de Lagarde encontra eco na realidade ibérica.
Fora da Europa, o tom é de maior prudência. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) alerta, no seu relatório anual, para quatro vulnerabilidades globais: o repique inflacionista ligado ao estreito de Ormuz, o otimismo especulativo em torno da inteligência artificial, a dívida pública próxima de máximos do pós-guerra e a crescente intermediação financeira não bancária. Em Rabat, no mesmo dia, uma conferência do FMI reuniu investigadores para debater os desafios da IA para os países do Médio Oriente e Norte de África, com destaque para o risco de alargamento da fratura digital e para a necessidade de requalificação da mão de obra — preocupações partilhadas por economias lusófonas em desenvolvimento.
O próximo dado concreto será o índice de preços no consumidor da zona euro, que os analistas preveem que desacelere para 3% em junho, abaixo dos 3,2% de maio. Embora alguns economistas considerem que o BCE não voltará a subir os juros, os mercados ainda antecipam um novo aumento de 0,25 pontos percentuais. A confirmar-se o abrandamento da inflação, o banco central poderá gerir o ritmo do aperto monetário com maior margem de manobra, enquanto outras regiões — de Teerão a Brasília — observam como a eventual redução de incertezas geopolíticas poderia devolver eficácia aos instrumentos convencionais de política monetária.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O BCE vira a página das medidas excecionais, regressando à sua missão central de estabilidade de preços. A resiliência recém-descoberta da Europa aos choques externos dá-lhe margem para agir de forma comedida, reunião a reunião. A subida dos juros foi uma decisão sólida e nada do que foi observado desde então a colocou em dúvida.
A Europa está a tornar-se menos vulnerável aos choques económicos, permitindo ao BCE abrandar o combate à inflação que travou com força em 2022-23. O banco central sinaliza que poderá não precisar de subir os juros de forma agressiva, sendo possível um aumento modesto. É destacada a maior resiliência do sistema bancário.
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