
EUA assinalam 250 anos com feira contestada e batalha sobre herança esclavagista
A Grande Feira do Estado Americano, evento central das comemorações, regista fraca afluência e críticas de partidarização, enquanto uma exposição sobre os escravos de George Washington é alvo de censura oficial.
Os Estados Unidos assinalam os 250 anos da Declaração de Independência com uma programação oficial que inclui a Grande Feira do Estado Americano, instalada no National Mall, em Washington. O evento, promovido pela administração Trump através da iniciativa Freedom250, tornou-se alvo de controvérsia devido à fraca afluência de público. Imagens divulgadas pela imprensa norte-americana mostram espaços amplamente vazios e uma atuação musical em que os membros da banda superavam os espectadores. Os organizadores afirmam ter recebido mais de 150 mil visitantes nos primeiros três dias, mas críticos, entre os quais o deputado democrata Sean Casten, sustentam que a feira atrai menos gente do que o habitual no local. A correspondente de um diário australiano que visitou o recinto descreveu um ambiente com forte presença de responsáveis da administração e aliados do movimento MAGA, conferindo ao evento um caráter partidário que se acentuou após a desistência de vários artistas convidados para a cerimónia de abertura.
Paralelamente, a celebração do aniversário reacendeu uma guerra cultural em torno da memória histórica. Na Filadélfia, a exposição permanente na Casa do Presidente — onde George Washington residiu e para onde levou nove escravos da sua plantação na Virgínia — está no centro de um confronto. De acordo com a imprensa suíça, a administração Trump emitiu uma ordem executiva intitulada “Restaurar a Verdade e a Sanidade na História Americana”, que proíbe o financiamento federal a museus que promovam “ideologias divisionistas centradas na raça”. Como consequência, vários painéis informativos foram retirados, e ativistas colaram mensagens de protesto nos espaços vazios. O ativista Michael Coard, um dos impulsionadores da exposição inaugurada em 2010, afirmou que o objetivo era transformar a informação sobre a escravatura em “munição cultural”. Um comentador brasileiro, em artigo de opinião, recorda que Thomas Jefferson, redator da Declaração, incluiu no rascunho original uma condenação veemente do tráfico de escravos, mas o trecho foi suprimido por pressão das colónias do Sul — uma elisão que ecoa nos debates contemporâneos sobre o passado esclavagista no Brasil e noutras sociedades atlânticas.
O momento suscita reflexões mais amplas sobre a saúde da democracia norte-americana. Analistas israelitas sublinham que o maior receio dos fundadores era a emergência de um demagogo capaz de subverter o sistema a partir de dentro, e para isso conceberam um complexo edifício de equilíbrios e contrapesos. Contudo, não anteciparam o impacto do dinheiro, da tecnologia e da comunicação partidária. A televisão pública britânica recolheu testemunhos de cidadãos comuns que, apesar das divisões, manifestam resiliência: “Ainda estamos de pé”. Figuras públicas entrevistadas por uma cadeia norte-americana ofereceram leituras contrastantes: a astronauta Suni Williams destacou a inovação como motor do futuro, enquanto o documentarista Ken Burns considerou que os fundadores ficariam perturbados com a pressão sobre o sistema de controlo institucional, embora impressionados com a longevidade da república.
Na perspetiva europeia, um diário francófono suíço observa que a fascinação pela América persiste, apesar de erros como as guerras do Vietname e do Iraque. Um banqueiro centenário recorda a criatividade e o civismo do pós-guerra. A relação entre os EUA e Israel é descrita por comentadores norte-americanos como um “pacto” alicerçado em valores bíblicos partilhados, mais do que em meros interesses estratégicos. A feira prossegue durante o verão, enquanto a revisão dos conteúdos museológicos federais continua, sem intervenção do Congresso até ao momento. O ano do 250.º aniversário promete manter acesa a disputa sobre o significado da fundação americana e o seu legado para o presente.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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No 250º aniversário, o vínculo entre os Estados Unidos e Israel é celebrado como um pacto sagrado enraizado em valores bíblicos compartilhados, não como um mero contrato transacional. Esta aliança duradoura é retratada como uma missão divina que antecede os próprios Estados Unidos, reforçando uma narrativa de excepcionalismo e liderança moral.
O 250º aniversário dos Estados Unidos é ofuscado por uma guerra cultural sobre a memória histórica, com a administração Trump a tentar remover uma exposição que destaca o passado escravocrata de George Washington. Este confronto expõe fraturas profundas na narrativa nacional, com ativistas dos direitos civis e autoridades locais a denunciar o que veem como uma tentativa de branquear os pecados fundacionais do país.
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