
Surto de Ébola na RDC ultrapassa 400 mortos e atinge cidade estratégica de Kisangani
A confirmação de um caso em Kisangani, a 600 km do epicentro, e a ausência de vacina para a estirpe Bundibugyo agravam o cenário de uma epidemia que já infetou mais de 1.400 pessoas.
O surto de Ébola na República Democrática do Congo (RDC) ultrapassou a barreira das 400 mortes, com 438 óbitos e 1.406 casos confirmados até ao início de julho, segundo o Instituto Nacional de Saúde Pública congolês. O dado que altera a avaliação de risco é a confirmação de um caso em Kisangani, cidade de 1,5 milhões de habitantes e capital da província de Tshopo, situada a cerca de 600 quilómetros do foco principal na província do Ituri. O corpo de uma mulher grávida de 24 anos, falecida em Ituri, foi transportado clandestinamente de moto para aquela cidade, expondo contactos numa região até agora não afetada. As autoridades sanitárias congolesas classificam o caso como “importado”, mas equipas de rastreio já identificaram vários contactos, enquanto um outro óbito e uma transmissão foram sinalizados na província vizinha do Haut-Uélé.
A epidemia, declarada oficialmente a 15 de maio, é causada pela estirpe Bundibugyo do vírus, para a qual não existem vacinas nem tratamentos aprovados. A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou o início de um ensaio clínico para avaliar duas terapêuticas experimentais, com o primeiro doente já recrutado. Em paralelo, a aliança internacional de diagnóstico FIND selecionou cinco fabricantes — dois da África Ocidental, um dos EUA e dois da Coreia do Sul — para iniciar, em meados de julho, testes de campo com testes rápidos de antigénio em amostras de sangue de doentes vivos. Atualmente, o diagnóstico depende de dez laboratórios com capacidade para testes moleculares, mas a falta de infraestruturas e a insegurança atrasam a obtenção de resultados.
O impacto económico projeta-se muito para além da emergência sanitária. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) estima que o surto pode empurrar 985 mil pessoas para a pobreza e custar às economias africanas até 3,6 mil milhões de dólares num cenário de propagação regional agravada por choques globais. Só na RDC, as perdas no PIB real podem ultrapassar mil milhões de dólares, com a eliminação de 55 mil postos de trabalho. Observadores em Kinshasa e em capitais vizinhas notam que as restrições comerciais e de viagem, ainda que necessárias, estão a devastar os meios de subsistência informais, afetando desproporcionalmente as mulheres.
No terreno, a resposta é dificultada por um ambiente de conflito armado, desconfiança comunitária e cortes na ajuda internacional. Na província do Ituri, onde se concentram mais de 90% dos casos, grupos armados controlam zonas inteiras, e a OMS registou mais de 520 incidentes de segurança nas primeiras três semanas do surto, incluindo ataques a unidades de saúde e o rapto de doentes. A saída dos EUA da OMS e os cortes drásticos nos orçamentos de preparação para pandemias, na perspetiva de analistas em Washington e Genebra, reduziram a capacidade de vigilância e resposta. No Quénia, o governo admite que a prontidão nacional contra o Ébola se encontra nos 66%, tendo identificado 25 condados de alto risco que necessitam de assistência técnica e financiamento de emergência.
O próximo marco factual a acompanhar é a eventual aprovação regulatória e a chegada ao terreno dos primeiros testes rápidos, prevista para as próximas semanas, a par dos resultados preliminares do ensaio clínico de terapêuticas. A contenção da epidemia dependerá da capacidade de isolar rapidamente os casos e de manter cadeias de rastreio em zonas de difícil acesso, num contexto em que a desinformação e as crenças locais continuam a alimentar a resistência às medidas de saúde pública.
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Um paciente na Escócia está a ser testado para o ébola depois de viajar de uma área afetada, levantando receios de que o vírus possa chegar a solo britânico. As autoridades de saúde sublinham que não há casos confirmados, mas que estão em vigor protocolos rigorosos. O incidente realça o alcance global do surto no Congo, agora o terceiro mais grave de sempre.
As Nações Unidas alertam que o surto de ébola na República Democrática do Congo pode custar a África até 3,6 mil milhões de dólares e destruir centenas de milhares de empregos, ameaçando uma catástrofe de desenvolvimento. Com mais de 1.300 infeções e 377 mortes, a estirpe Bundibugyo representa um grave risco económico. Sem financiamento urgente, a crise pode empurrar mais 985.000 pessoas para a pobreza.
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