
No jardim de Dolli Irigoyen, o doce de laranja que evoca um tempo de soluções caseiras
Entre receitas de lavanda, vinagre e limão, a tradição popular reencontra o olhar da ciência, da Austrália a Buenos Aires.
As mãos experientes de Dolli Irigoyen escolhem as laranjas de casca grossa no jardim da sua casa em Las Heras, na Argentina. “Todos os anos dão muito bem, mas este ano tenho uma grande variedade”, conta a cozinheira, enquanto separa os frutos que se transformarão num doce caseiro, sem químicos nem conservantes. A cena, partilhada nas redes sociais, condensa um gesto ancestral: o de transformar o que a terra oferece em remédio, aroma ou alimento, com a sabedoria de quem conhece os ciclos da natureza.
Esse impulso atravessa as fronteiras e as gerações. Nas lavandarias argentinas, uma lavadeira experiente verte um copo de vinagre branco no compartimento do amaciador para devolver o branco às roupas, enquanto outra mão anónima ferve cascas de limão com folhas de louro para perfumar a casa e afastar insetos. Há quem licue cascas de limão com bicarbonato de sódio para limpar superfícies, ou quem deixe uma laranja embolorada de molho durante dois dias para obter um líquido que, aplicado no jardim, altera o comportamento de certos insetos. A menta, fácil de encontrar em qualquer viveiro, é cultivada em vasos para proteger canteiros e afastar pragas, graças aos óleos essenciais que interferem nos recetores dos insetos, como demonstraram estudos da Universidade de Nova Deli. Em todos estes casos, a lógica é a mesma: recorrer ao que está à mão, com a confiança de que a natureza oferece soluções.
Contudo, o olhar da ciência contemporânea ora confirma, ora refuta estas práticas. Uma análise de 23 ensaios clínicos, liderada pela Universidade de Sydney, revelou que a melatonina – hormona usada contra a insónia – pode aliviar a dor crónica muscular e articular em cerca de nove pontos numa escala de zero a cem, um efeito semelhante ao de analgésicos comuns como o ibuprofeno. Os investigadores australianos sublinham que não se trata de substituir os fármacos tradicionais, mas de oferecer “uma opção adicional mais segura”. Já no tratamento da dor nas costas, que afeta milhões de pessoas, a mesma universidade descobriu que 95% dos doentes não precisam de exames de imagem e que o movimento gradual é mais eficaz do que medicamentos que podem ser prejudiciais. Quanto às entorses, especialistas revistos pela imprensa argentina lembram que o gelo, embora popular, reduz o fluxo sanguíneo apenas entre 5% e 10% nos primeiros minutos, podendo atrasar a cicatrização se aplicado em excesso; a compressão e a elevação são, afinal, as medidas mais consensuais.
Na perspetiva de São Paulo, onde as receitas caseiras circulam em grupos de vizinhança e redes sociais com a mesma naturalidade com que se partilha um café, estas descobertas reacendem um debate antigo. Em Lisboa, a lavanda debaixo da almofada – truque recomendado por especialistas em aromaterapia para acalmar o sistema nervoso – evoca uma tradição que atravessa o Mediterrâneo e encontra eco nas casas portuguesas, onde os saquinhos de alfazema perfumam as gavetas há séculos. A tensão entre o saber popular e a evidência científica não é nova, mas ganha contornos particulares quando a própria ciência valida alguns remédios e desaconselha outros, como o uso prolongado de vinagre nas máquinas de lavar, que fabricantes como a Whirlpool alertam poder danificar vedantes e mangueiras.
Ao cair da tarde, numa cozinha de Buenos Aires ou de Belo Horizonte, uma panela com cascas de limão e folhas de louro ainda fumega sobre o fogão, libertando um vapor cítrico que se insinua pelas cortinas e disfarça o cheiro da fritura. É uma imagem que persiste, não como promessa de milagre, mas como testemunho de uma relação íntima com os elementos – a água, o fogo, a planta – que a modernidade não apagou por completo.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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