
Erdogan exige integração na defesa europeia às vésperas de cimeira da NATO em Ancara
Presidente turco condiciona unidade da aliança à participação em programas como o SAFE, enquanto UE reafirma apoio à solução de dois Estados e rejeita exército próprio.
A poucos dias da cimeira da NATO em Ancara, o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, condicionou a unidade da aliança à inclusão plena da Turquia nas estruturas de defesa europeias, com destaque para o programa SAFE, dotado de 150 mil milhões de euros. Em Istambul, perante delegações parlamentares dos 32 Estados-membros, Erdogan afirmou que as contribuições indispensáveis de Ancara para a segurança europeia são frequentemente ignoradas e exigiu o levantamento de todas as restrições ao comércio de equipamento de defesa entre aliados. A visita paralela da alta representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, Kaja Kallas, a Ancara, nos dias 29 e 30 de junho, sublinha a centralidade da Turquia na arquitetura de segurança do flanco sul, mas também expõe as divergências sobre o modelo de defesa do continente.
Na perspetiva de Bruxelas, a Turquia é um parceiro estratégico incontornável na gestão de migrações, na estabilidade do Cáucaso e do Médio Oriente e na própria dissuasão da NATO, onde dispõe do segundo maior exército. Kallas descreveu o país como um ator de papel muito, muito proeminente e defendeu a continuação do diálogo, apesar de rejeitar a criação de um exército europeu independente, sublinhando que as ameaças são regionais e a resposta deve ser coordenada no quadro da NATO. Contudo, um porta-voz da Comissão Europeia lembrou que a participação de Estados terceiros no SAFE exige um acordo bilateral — atualmente inexistente com Ancara — e que a oposição de Estados-membros como a Grécia, devido ao diferendo cipriota, pode bloquear qualquer avanço. Observadores em Lisboa notam que a relutância de Paris e Berlim em integrar a indústria de defesa turca reflete uma desconfiança persistente, ancorada nas relações de Ancara com Moscovo e na questão de Chipre.
Ancara, por seu lado, apresenta a sua capacidade industrial como um ativo incontornável: as exportações de defesa cresceram 29,5% nos primeiros cinco meses do ano, aproximando-se dos quatro mil milhões de dólares, e os drones turcos foram determinantes na resistência ucraniana. Erdogan insiste que a exclusão da Turquia por interesses políticos limitados não beneficia ninguém e propõe uma rede de segurança que se estenda do Texas a Ancara. Ao mesmo tempo, o Presidente turco coloca a questão palestiniana no centro das tensões regionais, afirmando que a raiz dos conflitos no Médio Oriente é a ocupação israelita e que a paz duradoura só será alcançada com a criação de um Estado palestiniano independente nas fronteiras de 1967.
A coincidência retórica com a posição europeia é apenas parcial. Kallas reafirmou o apoio inequívoco da UE aos palestinianos e à solução de dois Estados, mas advertiu que a expansão dos colonatos está a tornar essa solução praticamente impossível, e defendeu a manutenção do diálogo com Israel mesmo perante a relutância do ministro dos Negócios Estrangeiros israelita em conversar. A cimeira da NATO, que decorrerá entre 7 e 8 de julho, deverá centrar-se no reforço da dissuasão, no aumento da produção de equipamento e na coordenação do apoio à Ucrânia, mas o dossier turco-europeu promete dominar as margens do encontro, com a expectativa de que sejam exploradas vias para um futuro acordo bilateral que enquadre a participação de Ancara nos projetos de defesa comunitários.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A imprensa iraniana enquadra a cimeira da NATO como mais um palco onde a Turquia denuncia a rede genocida israelita e recorda que a ocupação da Palestina é a raiz de todas as tensões regionais. Ancara é retratada como um parceiro estratégico indispensável, mas a verdadeira mensagem é a expectativa de um apoio concreto para travar as agressões contra o Líbano e Gaza. A integração na defesa europeia fica em segundo plano perante a urgência moral de pôr fim à injustiça histórica contra os palestinianos.
Os meios de comunicação russos destacam a esperança de Erdogan em progressos rápidos na resolução pacífica do conflito na Ucrânia, sublinhando a necessidade de manter a capacidade de dissuasão da NATO e a solidariedade entre aliados. A cimeira de Ancara é apresentada como uma oportunidade para reavivar o diálogo, com a Turquia a posicionar-se como mediadora pragmática. A questão da integração na defesa europeia é pouco referida, ofuscada pela urgência de um cessar-fogo na Ucrânia.
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