
À luz das velas, o luto e a fúria dos estudantes indianos
Após o cancelamento de exames médicos por fuga de provas, jovens protestam em Deli enquanto o país revê a vigilância tecnológica sobre a educação.
Na noite de segunda-feira, 22 de junho, uma multidão reuniu-se em Jantar Mantar, o tradicional palco de protestos em Nova Deli. Seguravam velas acesas diante de um cartaz com fotografias de jovens — estudantes que, segundo a imprensa local, tiraram a própria vida após o cancelamento dos resultados do exame nacional de admissão médica, o NEET. Fez-se silêncio. As chamas tremeluziam sobre os rostos impressos, enquanto o grupo Cockroach Janta Party (CJP) exigia a demissão do ministro da Educação e uma indemnização de um milhão de rupias para cada família enlutada.
O gesto fúnebre é a face mais crua de uma crise que abalou o sistema de exames indiano. Em maio, mais de dois milhões de candidatos prestaram o NEET, porta de entrada para as escolas médicas do país. Pouco depois, o governo anulou os resultados ao confirmar que as perguntas tinham sido divulgadas previamente. Um professor de química foi apontado como o “cérebro” da operação; as questões terão circulado no Telegram e noutras plataformas encriptadas. A repetição da prova, no domingo anterior, mobilizou um dispositivo de segurança sem precedentes: 5.440 centros, 138 mil câmaras de videovigilância, 51 mil inibidores de sinal e uma sala de guerra em Okhla onde 250 observadores, auxiliados por inteligência artificial, monitorizavam em tempo real cada movimento suspeito. Para Pradeep Mahich, de 22 anos, que tentava o exame pela quarta vez, o cancelamento foi a gota final. O pai vendera as terras da família para financiar o sonho do filho. Pradeep suicidou-se.
A Índia vive uma relação obsessiva com os exames de acesso ao ensino superior. Anualmente, milhões de jovens disputam um punhado de vagas em medicina e engenharia, num ritual que consome famílias e dita futuros. O escândalo do NEET reacendeu a desconfiança na integridade do sistema, mas não é um caso isolado. Dias antes, o Conselho Central de Educação Secundária (CBSE) divulgara os resultados da reavaliação das provas do 12.º ano: mais de 1,6 lakh de alunos pediram revisão depois de receberem digitalizações desfocadas, páginas em falta ou correções trocadas. Os aumentos de nota foram substanciais — de 71 para 90 valores em Física, de 74 para 97 em História —, expondo as fragilidades da correção digital inaugurada este ano. Para o público brasileiro, habituado às tensões do ENEM e dos vestibulares, ou para as famílias portuguesas que aguardam os exames nacionais, a angústia indiana ecoa com familiaridade. Também nos Emirados Árabes Unidos, os alunos do 5.º ao 12.º ano iniciavam esta semana exames eletrónicos sob regras estritas: nada de telemóveis, nada de leitura das perguntas pelos professores.
A resposta ao escândalo não se limitou à repetição da prova. Enquanto o governo mobilizava um “Team Bharat” de 700 mil funcionários para blindar o exame, o CJP montava uma vigília indefinida. “Não impediremos os nossos filhos de protestar”, apelava o porta-voz aos pais. Cartazes pediam justiça, velas recordavam os mortos, e cânticos como “Sadda haq” (o nosso direito) enchiam a noite. A polícia tentou reduzir o espaço com barricadas, mas os manifestantes resistiram. A poucos quilómetros dali, o quartel-general da Agência Nacional de Testes processava milhares de feeds de vídeo, confiante de que nenhuma fuga escaparia aos algoritmos. A imagem de um Estado que tudo vê contrasta com a chama frágil de uma vela na mão de um manifestante.
Em Wallingford, nos Estados Unidos, o ano letivo terminara a 18 de junho com uma saída antecipada; as salas de aula ficaram vazias até ao recomeço, em agosto. Em Deli, as salas estavam cheias de câmaras e de jovens sob escolta. E em Jantar Mantar, as velas continuavam acesas, diante de um cartaz com fotografias que não voltarão a sorrir. A chama, pequena e persistente, é ao mesmo tempo luto e acusação.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O sistema de exames da Índia implantou vigilância sem precedentes—câmeras de reconhecimento facial, salas de controle com IA—mas o custo humano continua subindo. Estudantes e famílias de trabalhadores diaristas veem seu futuro desmoronar, enquanto manifestantes com velas exigem responsabilização e a renúncia do ministro da Educação.
Um vazamento de prova médica na Índia se transformou em uma crise total: resultados cancelados, uma nova prova militarizada e pelo menos seis suicídios de estudantes. O escândalo expôs o que críticos chamam de sistema educacional em colapso, enquanto protestos e vigílias à luz de velas lamentam os mortos e exigem mudanças.
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