
Sanduíche na praia, saudade do descanso: o verão que resiste à crise
Entre o Mediterrâneo e o Golfo, famílias protegem as férias como um bem essencial, mas cortam refeições, encurtam estadias e, em alguns casos, trocam o lazer pela recuperação escolar.
Na areia de Chipiona, Cádis, Daniel García, 26 anos, desembrulha um sanduíche. O assessor hipotecário espanhol não renunciou aos nove dias de verão entre a costa atlântica e a Galiza, mas riscou do mapa os restaurantes. “Agora, em vez de sair para comer ou jantar tudo o que tinha pensado, como um sanduíche no apartamento ou na praia”, contou ao El Mundo. A cena, miúda e silenciosa, repete-se com variações mínimas de Génova a Surabaya: o descanso tornou-se inegociável, mas a sua arquitetura financeira está a ser redesenhada à mesa da cozinha.
O gesto de García não é um acidente ibérico. Em Itália, um inquérito da Eumetra revela que 18% dos italianos mantiveram o orçamento das férias intacto, abdicando de outras despesas durante o ano, e 23% estariam dispostos a cortar primeiro nas compras pessoais. Do outro lado do Canal da Mancha, 27% das famílias britânicas com filhos entre os cinco e os 18 anos não reservaram qualquer pausa estival, segundo uma sondagem da Airbnb, e 42% dos pais sentem a pressão de proporcionar uma viagem mesmo com as finanças estranguladas. A inflação que disparou em 2021 e 2022 deixou uma cicatriz persistente: no Reino Unido, o pico de 11,1% em outubro de 2022 ainda se traduz em poupanças esvaziadas e em 38% das famílias que dependem de ajuda financeira de parentes para conseguir partir.
O que surpreende os observadores do turismo no sul da Europa é a resiliência simbólica das férias. “Os italianos procuram nas férias algo para reencontrar, não algo para mostrar”, sintetiza Matteo Lucchi, presidente da Eumetra, sublinhando que 51% dos entrevistados veem o período como uma interrupção da pressão quotidiana e apenas 7% o associam à ostentação social. O verdadeiro luxo, para um terço dos inquiridos, é dispor de tempo sem horários — percentagem idêntica à dos que preferem conhecer lugares novos. Na vizinha Espanha, a patronal hoteleira Hosbec nota que o cliente nacional adota um comportamento “mais conservador” no gasto médio e na duração da estadia, enquanto o turista internacional ganha peso. O verão de 2025 já dera o sinal: o desembolso total dos turistas internos espanhóis estagnou nos 16.298 milhões de euros, uma quebra de 0,1% face ao ano anterior.
Fora do eixo mediterrânico, o significado da pausa estival bifurca-se. Na Argélia, o debate entre os pais oscila entre a recuperação das lacunas escolares e o direito ao descanso. “A tecnologia aboliu as distâncias”, diz uma mãe argelina, enquanto outra inscreve o filho num curso de robótica a um custo superior a um milhão de cêntimos de dinar por mês, convencida de que uma semana de praia basta para recarregar energias. Em Surabaya, na Indonésia, a diretora de Educação municipal, Febrina Kusumawati, apela a que as férias de junho e julho sejam preenchidas com “atividades positivas, produtivas e que proporcionem novas experiências”, e recorda aos pais que a pausa letiva não suspende a formação do caráter. Nos Emirados Árabes Unidos, os alunos do quinto ao décimo segundo ano iniciam esta semana os exames finais eletrónicos, enquanto as escolas privadas oferecem programas de verão que prolongam a lógica curricular.
A imagem que perdura é a de um direito ao descanso defendido com engenho e contenção. Em Wallingford, Connecticut, as famílias já sabem que o próximo ano letivo arranca a 27 de agosto, e o verão volta a ser a longa respiração entre dois calendários. Na praia de Chipiona, o sanduíche de Daniel García sabe a férias — não às férias que se exibem, mas àquelas que se protegem, migalha a migalha, contra a erosão do poder de compra.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Italianos e espanhóis não abrem mão das férias de verão apesar dos aumentos de preços, vendo-as como essenciais para o bem-estar. Cortam nos extras: um sanduíche na praia em vez de restaurante. Pesquisas mostram que mais da metade considera as férias uma pausa da pressão diária, e os gastos com turismo interno estagnaram.
No Reino Unido, a crise do custo de vida está forçando mais de um quarto das famílias a abrir mão totalmente das férias de verão. Os custos crescentes de viagem e hospedagem são a principal barreira, segundo uma pesquisa com pais. As férias estão se tornando um luxo que muitos já não podem pagar.
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