
Surto de Ébola na RD Congo pode ser até quatro vezes maior, alerta OMS; cidadão dos EUA infetado
Nova estirpe Bundibugyo, com sintomas mais leves, dificulta rastreamento e leva a subnotificação, enquanto cólera, febre de Lassa e VIH pressionam sistemas de saúde na África Ocidental e Central.
Um cidadão norte-americano que trabalhava para uma organização humanitária na República Democrática do Congo testou positivo para o vírus Ébola da estirpe Bundibugyo, informou o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA a 10 de julho. O caso coincide com um alerta da Organização Mundial da Saúde: o surto em curso, declarado em meados de maio, pode ser duas a quatro vezes maior do que os números oficiais indicam. Até agora, foram confirmados 1.830 casos e 648 mortes, mas cerca de 80% das novas infeções na zona de Bunia, província de Ituri, não têm ligação conhecida com doentes já identificados, sinal de transmissão comunitária intensa e subnotificação.
A estirpe Bundibugyo, para a qual não existe vacina autorizada, parece provocar sintomas mais leves do que outras variantes, reduzindo a perceção de risco e levando famílias a cuidar de doentes em casa antes de procurarem tratamento. Embora isso possa melhorar a sobrevivência dos que chegam aos centros de saúde, prolonga o período de contágio na comunidade. Uma análise das primeiras 400 mortes revelou que cerca de 70% ocorreram fora de unidades de tratamento. O vírus já se espalhou para quatro províncias, incluindo Haut-Uele, onde sete casos fatais foram confirmados na zona de saúde de Wamba.
A resposta sanitária enfrenta obstáculos logísticos e de segurança. Em Ituri, epicentro do surto, grupos armados e a desconfiança da população dificultam o trabalho das equipas. A organização Médicos Sem Fronteiras mantém um centro de simulação em Nairobi, no Quénia, para preparar profissionais de saúde para o ambiente “intenso” do terreno, com foco no envolvimento comunitário e no uso de equipamentos de proteção individual. Paralelamente, outros países africanos lidam com emergências simultâneas: no estado nigeriano de Borno, um surto de cólera agravado pela insurgência jihadista já causou dezenas de mortes em comunidades de difícil acesso; a febre de Lassa regista um pico na Nigéria, com 66 casos e sete óbitos em três semanas; e no Gana, a prevalência do VIH entre homossexuais na região de Bono atinge 26%, segundo a Comissão de SIDA do país.
Na perspetiva de observadores em Lisboa e Brasília, a multiplicação de focos infeciosos em África exige atenção redobrada, embora, até ao momento, não haja registo de casos nos países lusófonos. A OMS iniciou a formação de 21 mil agentes de saúde comunitários para visitas domiciliárias no leste do Congo, enquanto doadores internacionais prometeram 910 milhões de dólares para a resposta na RD Congo e no Uganda, que já notificou 20 casos. O próximo marco será a capacidade de rastrear contactos e isolar doentes antes que o surto atinja centros urbanos densamente povoados.
| Imprensa europeia continental | −0.60 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa do Golfo árabe | 0.00 | neutral |
| Imprensa africana subsaariana | −0.20 | neutral |
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