
Sobre as rochas de Lampedusa, o apelo transatlântico de Leão XIV
O primeiro papa americano escolheu o Quatro de Julho para rezar pelos migrantes anónimos e pedir à Europa e aos EUA uma política de acolhimento que honre a dignidade humana.
A imagem percorreu o mundo em poucas horas: o papa Leão XIV, de batina branca, sozinho sobre as rochas ásperas do molhe de Lampedusa, o solidéu arrancado pelo vento enquanto fitava o Mediterrâneo. O gesto, aparentemente simples, carregava um simbolismo que atravessava oceanos. No dia em que os Estados Unidos celebravam 250 anos de independência, o primeiro pontífice nascido em solo americano escolheu o epicentro da crise migratória europeia para lançar um apelo que ecoou nos dois lados do Atlântico.
A visita começou no cemitério da ilha, onde repousam migrantes sem nome, vítimas de naufrágios. Ali o papa ajoelhou‑se, rezou e depositou uma coroa de flores. Passou depois pela ‘Porta da Europa’, monumento aos que arriscam tudo na travessia, e encontrou sobreviventes, entre eles Leo, um jovem que ali chegou sozinho há uma década e que lhe ofereceu uma carta e uma bola, pedindo que fosse entregue a outra criança migrante. A missa ao ar livre, celebrada num campo desportivo transformado em ‘catedral a céu aberto’, reuniu cerca de seis mil pessoas. Na homília, Leão XIV pediu à Europa uma abordagem ‘orgânica’ que integre o socorro imediato com estratégias de longo prazo capazes de ‘acolher, proteger, promover e integrar’ os migrantes, ao mesmo tempo que se ataca a raiz do problema, para que ninguém seja forçado a emigrar.
Lampedusa, ilha de vinte quilómetros quadrados a poucos quilómetros da costa tunisina, tornou‑se símbolo do drama humano que se desenrola no Mediterrâneo central, a rota migratória mais mortífera do mundo segundo a Organização Internacional para as Migrações. Só em 2025 desapareceram ou morreram cerca de 1330 pessoas naquela extensão de mar. A visita de Leão XIV ocorreu semanas depois de a União Europeia ter aprovado novas regras que ampliam a detenção e preveem centros de retenção fora do bloco, e no mesmo dia em que o presidente Trump celebrava o aniversário da nação com paradas e fogo de artifício. Numa carta enviada aos americanos, o papa insistiu que proteger a vida inclui ‘acolher, proteger e assistir os imigrantes’, e recordou que as ‘sucessivas vagas de imigrantes’ ajudaram a construir o país.
Na lusofonia, a imagem do sumo pontífice solitário face ao mar encontrou particular reverberação. De Lisboa, atenta aos fluxos que atravessam a fronteira sul, às capitais da África lusófona, de onde partem muitos dos que aspiram a chegar à Europa, o apelo por ‘trabalhar pelo desenvolvimento, de tal forma que ninguém se veja obrigado a emigrar’ soou como um reconhecimento de uma ferida partilhada. A referência aos sistemas económicos que ‘geram pobreza e exclusão’ foi lida com interesse por quem, em países como Cabo Verde ou a Guiné‑Bissau, sente na pele o desequilíbrio global que o papa denunciou.
Antes de partir, Leão XIV abençoou uma placa que dá ao cais o nome de ‘Molo Papa Francesco’, em homenagem ao antecessor que em 2013 fez de Lampedusa o destino da sua primeira viagem, denunciando a ‘globalização da indiferença’. A continuidade do gesto não escapou a quem, no Mediterrâneo como no Atlântico, continua a recolher corpos e esperanças. A frase que o papa sussurrou ao vento, ‘mais do que as palavras contam os gestos’, ficou suspensa sobre as ondas enquanto o barco regressava ao Vaticano.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Pope Leo XIV asks Europe and the United States to protect migrants, recalling the thousands dead in the Mediterranean. The visit to Lampedusa on US Independence Day is a powerful symbolic gesture, almost a challenge to the Trump administration. Humanity is at the center, but European policies remain cold and insufficient.
Pope Leo XIV visits Lampedusa and calls for greater protection for migrants, while Europe tightens its policies. The visit recalls that of Francis in 2013 and underscores growing intolerance and indifference towards migration crises. The choice of July 4 is a message to American leaders.
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