
Onda socialista em Nova Iorque e queda de Starmer agitam política anglo-americana
Na mesma semana, três candidatos endossados pelo presidente da Câmara de Nova Iorque venceram primárias democratas, enquanto o primeiro-ministro britânico renunciou sob pressão interna, abrindo caminho a um sucessor com plataforma de nacionalizações.
O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, renunciou na segunda-feira, após 23 meses de mandato marcados por desgaste político e uma rebelião interna que levou à demissão de cerca de 20 ministros. A pressão intensificou-se com a vitória surpreendente de Andy Burnham, presidente da Câmara da Grande Manchester, numa eleição suplementar em Mickerfield — o mesmo círculo que votara esmagadoramente pelo Brexit em 2016. Burnham, que lidera as sondagens para substituir Starmer, defende a nacionalização de serviços públicos e uma maior intervenção estatal na economia, num eco do programa que Zohran Mamdani, presidente da Câmara de Nova Iorque, tem aplicado na maior cidade norte-americana.
Na terça-feira, Mamdani celebrou a vitória de três candidatos apoiados por si e pelos Socialistas Democráticos da América (DSA) nas primárias democratas para a Câmara dos Representantes. Brad Lander derrotou o democrata Dan Goldman, conhecido pelo forte apoio a Israel, enquanto Darializa Avila Chevalier venceu o veterano Adriano Espaillat. Claire Valdez conquistou uma cadeira aberta. O autarca, que se define como socialista democrático, congratulou-se com os resultados, afirmando que os nova-iorquinos «experimentaram seis meses de políticas como a gratuitidade das creches, a devolução de milhões a inquilinos lesados e a redução histórica da criminalidade», e decidiram levar essa experiência ao plano nacional. Críticos republicanos, e também vozes no Partido Democrata, denunciaram a inflexão à esquerda. A Coligação Judaica Republicana acusou Jeffries, líder da minoria democrata na Câmara, de abraçar candidatos que «querem abolir prisões e fronteiras» e minimizar os ataques de 11 de setembro. Já a Fox News descreveu o programa de Mamdani como «comunismo», citando o congelamento de rendas de um milhão de apartamentos — medida que afeta diretamente os 14.000 imóveis controlados por Donald Trump.
Na perspetiva de analistas europeus, a dupla movimentação insere-se numa vaga mais ampla de regresso a políticas de esquerda clássica. Nicholas Mulder, historiador da Universidade de Cornell, identifica uma «quarta onda de nacionalizações» desde o século XX, impulsionada agora pela inflação e pela geopolítica. Burnham, por exemplo, promete nacionalizar a Thames Water, empresa de saneamento. Contudo, observadores em Londres alertam para a fragilidade do sistema político britânico, que desde o Brexit já consumiu seis primeiros-ministros em dez anos. O jornalista Walter Bagehot chamou-lhe «governação por emoção»: a elite entusiasma-se com uma figura salvadora, para logo a descartar face às dificuldades do poder. A experiência de Burnham como executivo municipal é limitada, e os seus poderes como mayor não equivalem à gestão de um Estado.
Em Washington, o fortalecimento da ala socialista democrata poderá complicar a estratégia do Partido Democrata para as eleições intercalares de novembro. Enquanto Hakeem Jeffries se esforça por unir o partido, os candidatos do DSA enfrentam o escrutínio sobre posições passadas, como o apelo ao «fim da polícia» ou declarações críticas de Israel. Em Nova Iorque, Mamdani mantém o tom desafiante: «Fui eleito como socialista democrático e governarei como socialista democrático». Do lado britânico, o Partido Trabalhista terá de decidir se abre um congresso para escolher o novo líder ou se coroa Burnham, eleito deputado há poucos dias. O futuro da ajuda militar do Reino Unido à Ucrânia, que ascende a 23,8 mil milhões de libras, surge como um dos dossiês mais sensíveis: segundo o senador russo Alexey Pushkov, não se esperam alterações imediatas, mas a deterioração financeira poderá tornar insustentável o compromisso de três mil milhões anuais até 2031.
A confluência dos dois fenómenos — a ascensão de Mamdani como figura nacional nos EUA e a provável liderança de Burnham — sinaliza, para observadores na América Latina, um possível reposicionamento do eixo progressista, ainda que em versão mais pragmática do que a vaga woke da década passada. Resta saber se a «revolução socialista» que Mamdani diz liderar resistirá ao teste das urnas e se Burnham conseguirá escapar à maldição do Brexit que, como nota o diário An-Nahar, continua a atormentar a política britânica.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A migração em massa tornou o Reino Unido irreconhecível e o sistema político está completamente avariado. Com a demissão de Starmer, o país caminha para o sétimo primeiro-ministro em dez anos, enquanto aumenta a pressão para fechar as brechas do asilo e travar a imigração ilegal.
Mais uma troca de primeiro-ministro em Londres é recebida com sarcasmo: a experiência do favorito Burnham a gerir autocarros não lhe servirá com Putin, Xi ou Trump. Moscovo assinala que a política de apoio militar e financeiro à Ucrânia permanecerá inalterada, pelo que a crise governativa britânica não muda nada.
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