
NOAA confirma consolidação do El Niño e países da América do Sul ativam planos de emergência
O aquecimento anómalo do Pacífico equatorial já desencadeia estados de emergência no Peru, alertas de seca na Colômbia e revisão de projeções económicas no Brasil, enquanto cientistas associam o fenómeno a um agravamento global da qualidade do ar.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) confirmou a 11 de junho a consolidação do fenómeno El Niño, após vários meses consecutivos com temperaturas da superfície do mar no Pacífico tropical pelo menos 0,5°C acima da média. A declaração formal altera o quadro de risco para os próximos trimestres: projeções de institutos meteorológicos e da Organização Meteorológica Mundial indicam uma probabilidade elevada de o evento se intensificar durante o segundo semestre de 2026, podendo prolongar-se até ao início de 2027 e atingir uma intensidade comparável à dos episódios mais severos desde 1950.
O mecanismo é conhecido: o aquecimento anómalo do Pacífico central e oriental altera a circulação atmosférica global, redistribuindo padrões de precipitação e temperatura. Na América do Sul, os efeitos são assimétricos. Enquanto a costa oeste — sobretudo Peru e Equador — regista chuvas intensas e risco de inundações, o norte e o centro do continente, incluindo a Colômbia e partes do Brasil, enfrentam défice hídrico e temperaturas acima da média. Estudos publicados na Atmospheric and Oceanic Science Letters mostram que, durante eventos de El Niño, as concentrações de partículas finas (PM2,5) libertadas por incêndios florestais aumentam entre 49% e 116% na América do Norte, entre 17% e 42% na Austrália e entre 27% e 71% na Indonésia, agravando a qualidade do ar e a ameaça à saúde pública.
O Peru foi o primeiro país a adotar uma resposta de grande escala: o governo declarou estado de emergência em 796 distritos — cerca de 40% do território — por um período de 60 dias, mobilizando orçamentos institucionais já existentes para medidas extraordinárias de redução do risco, classificado como “muito alto”. A medida abrange regiões costeiras, andinas e amazónicas, incluindo Lima, Cusco e Arequipa, e visa antecipar os impactos de chuvas intensas, deslizamentos e danos a infraestruturas. Na Colômbia, o Ideam identificou dez departamentos com maior probabilidade de condições secas, entre eles Cundinamarca, Antioquia e Santander, e o governo pediu à população que ative planos de preparação, reforce a poupança de água e evite queimadas. No Brasil, o Santander avalia que os riscos macroeconómicos são “administráveis”, mas projeta dispersão nos lucros das empresas: efeitos positivos para bebidas e utilities, negativos para o agronegócio e o crédito rural. O estado do Rio de Janeiro iniciou a preparação dos municípios para ondas de calor, estiagem e incêndios florestais, com a perspetiva de 96% de probabilidade de o fenómeno se consolidar até ao verão de 2026/2027.
A comunidade científica sublinha que o atual episódio se insere num contexto de eventos extremos mais frequentes. O meteorologista José Serra, do Instituto Uruguaio de Meteorologia, advertiu que “já é tarde para nos prepararmos” e defendeu que a prioridade deve ser a adaptação: sistemas de alerta precoce, planeamento territorial e infraestruturas resilientes. A Organização Mundial da Saúde recorda que, em 2015, um El Niño intenso agravou incêndios florestais no Sudeste Asiático, afetando 43 milhões de pessoas só na Indonésia. O próximo marco factual a observar será a evolução das anomalias térmicas do Pacífico nos próximos boletins da NOAA e a eventual extensão ou renovação dos estados de emergência nos países andinos, à medida que o segundo semestre de 2026 se aproxima.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O fenômeno El Niño está se intensificando e ameaça diretamente a América Latina. Os governos correm para reagir: o Peru declara estado de emergência em 40% do seu território, enquanto o Brasil avalia os riscos para a agricultura e os serviços públicos. Os cientistas alertam que já é tarde para se preparar para um Super Niño que trará inundações, secas e ondas de calor.
Os oceanos acabam de quebrar um recorde perturbador, absorvendo os pecados climáticos da humanidade e agora superaquecendo a níveis sem precedentes. A temperatura da superfície do mar ultrapassou os picos extraordinários de 2023 e 2024, aumentando o temor de um verão de calor extremo e um El Niño fora de controle. É mais um sinal de que a crise climática está se acelerando, com consequências globais cada vez mais severas.
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