
Onda de calor na Europa seria impossível sem mudança climática, conclui estudo
Análise de atribuição rápida mostra que temperaturas recordes de junho foram até 3,5°C mais altas do que seriam há 50 anos, com noites 100 vezes mais prováveis.
A vaga de calor que atinge a Europa ocidental teria sido “praticamente impossível” há 50 anos, segundo um estudo de atribuição rápida do grupo World Weather Attribution (WWA) divulgado esta sexta-feira. Os cientistas calcularam que, no clima de 1976, um evento semelhante registaria máximas diurnas 3,5°C mais baixas e mínimas noturnas 2,4°C mais frescas. Em relação à vaga histórica de 2003, as noites quentes são agora cerca de 100 vezes mais prováveis e os picos diurnos, 10 vezes mais prováveis. A análise baseou-se em dados observados e previsões para 854 cidades de 30 países, concluindo que 45% destas já bateram ou estão prestes a bater recordes de stress térmico — um índice que combina temperatura e humidade e mede a capacidade do corpo de se arrefecer pelo suor.
O mecanismo meteorológico imediato é uma “cúpula de calor” — uma massa de ar quente vinda de África comprimida por altas pressões em altitude —, mas os investigadores atribuem a intensidade recorde de forma “inequívoca” ao aquecimento global de origem humana. A queima de combustíveis fósseis e, em menor escala, a desflorestação são apontadas como causas. O fenómeno natural El Niño, que aquece o Pacífico equatorial, não teve qualquer influência nesta vaga, descartaram os autores. A metodologia, embora não tenha sido revista por pares antes da publicação, já foi validada pela comunidade científica, sublinha o WWA.
Os impactos na saúde são o principal foco de preocupação. O stress térmico noturno impede a recuperação do organismo, agravando o risco de morte. Um estudo citado pela Organização Mundial da Saúde indica que as ondas de calor causaram mais de 200 mil mortes na Europa nos últimos quatro anos. Em Portugal, onde as temperaturas também dispararam, as autoridades emitiram alertas vermelhos e reforçaram a prontidão contra incêndios rurais, um cenário familiar para o país. Observadores em Brasília notam que o episódio europeu ecoa as vagas de calor extremo que o Brasil tem enfrentado, com impactos na agricultura e na saúde pública, e sublinham a urgência de políticas de adaptação também no hemisfério sul. Nos países africanos de língua oficial portuguesa, a vulnerabilidade a eventos extremos é agravada por infraestruturas menos resilientes, embora o estudo se concentre na Europa.
O próximo marco factual será a revisão pelos pares do estudo completo, que os autores prometem submeter a uma revista científica. Entretanto, o secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, Simon Stiell, reagiu ao trabalho afirmando que “a ciência é muito clara” e que a solução passa por uma transição mais rápida para energias limpas, hoje mais baratas do que os combustíveis fósseis. A Comissão Europeia deverá apresentar nas próximas semanas uma atualização da sua estratégia de adaptação climática, enquanto os termómetros continuam a subir no continente.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A mudança climática é a causa inequívoca da intensa onda de calor na Europa, que teria sido praticamente impossível há cinquenta anos. As temperaturas diurnas e noturnas de hoje teriam sido virtualmente impossíveis em 1976. O estudo confirma o papel decisivo do aquecimento global causado pelo homem.
A Europa está a sofrer a onda de calor mais severa de que há registo, com temperaturas até 12°C acima do normal. Os cientistas alertam que um calor tão extremo, tornado mais perigoso pela humidade e noites quentes, era virtualmente impossível há apenas cinco décadas. O estudo destaca o agravamento da crise climática.
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