
A areia, o espelho e o monstro: a odisseia técnica de Christopher Nolan
Do tapete vermelho transformado em praia em Londres à peregrinação de fãs por salas IMAX, o novo épico de Nolan reacende o debate sobre o futuro do cinema.
Na estreia mundial em Leicester Square, a 6 de julho, o tapete vermelho desapareceu sob toneladas de areia verdadeira. Um gigantesco painel de LED recriava o movimento das ondas enquanto o elenco — Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Zendaya — pisava a praia artificial no coração de Londres. Não era apenas um golpe de marketing: a areia anunciava a matéria-prima de um filme que recusa o digital sempre que possível, filmado em seis países, com milhares de figurantes e zero ecrãs verdes para substituir paisagens.
A ambição técnica de “The Odyssey” é o seu primeiro mito. Pela primeira vez na história, uma longa-metragem inteira foi captada em película IMAX 70mm, um formato de 15 perfurações por fotograma que corre horizontalmente no projetor e oferece uma resolução equivalente a 18K. Para filmar diálogos com câmaras que rugem como motores, a equipa de Nolan construiu um invólucro à prova de som — um “blimp” do tamanho de um caixão, com mais de 136 quilos — e um sistema de espelhos que permitia aos atores olharem-se nos olhos apesar da caixa metálica entre eles. Hathaway descreveu a solução como “verdadeiramente engenhosa”. No final das rodagens, tinham sido expostos 640 quilómetros de película, o equivalente à linha costeira dos Emirados Árabes Unidos. Apenas 41 salas no mundo podem projetar a cópia em 70mm; o rolo pesa 240 quilos e estende-se por mais de 17 quilómetros.
A resposta do público antecipa um fenómeno raro. No Japão, um espectador alterou as férias para assistir à sessão de abertura no BFI de Londres, gastando cerca de 1.300 libras na expedição. Nos Estados Unidos, bilhetes em revenda chegaram aos 600 dólares, e salas do Midwest programaram sessões às sete da manhã com pequeno-almoço incluído. Na Índia, onde Nolan goza de um culto incomum, os fãs pagarão entre mil e três mil rupias por um bilhete IMAX, mas nenhuma sala indiana dispõe do projetor 1570: a imagem será cortada, perdendo o topo e a base do enquadramento original. A peregrinação global repete o gesto dos cinéfilos que, em 2017, convenceram o IMAX Melbourne a reinstalar o projetor de película para “Dunkirk”.
Culturalmente, o filme reabre a negociação entre o clássico e o contemporâneo. Nolan exibiu ao elenco “Andrei Rublev” (1966), “Ran” (1985) e “A Última Tentação de Cristo” (1988) como inspiração de textura, não de enredo. Na Rússia, a estreia coincide com um novo e polémico tradução da “Odisseia” por Grigori Starikovski, que abandona o hexâmetro canónico e verte “carne humana” por “humanina” e “pretendentes” por “namoradores”. As primeiras reações da crítica especializada, após sessões reservadas, são quase unânimes no entusiasmo, embora um crítico tenha apontado problemas de iluminação, ritmo e uma mistura de som “lamacenta” que dificultava a compreensão dos diálogos. Nas redes, aquece a contestação à fidelidade ao texto homérico e à escolha de atores de minorias, antecipando campanhas de bombardeamento de notas.
Resta a imagem de um objeto que é, ao mesmo tempo, ruína e farol. Em Favignana, Matt Damon subiu a pé, durante duas semanas, até ao Castello di Santa Caterina para filmar cenas de sentinela no alto da falésia; o equipamento subia de helicóptero. No subsolo islandês, as grutas de Hjörleifshöfði e as fontes geotérmicas deram corpo ao reino dos mortos sem um único ambiente digital. O espelho que devolvia o olhar entre os atores, contornando a máquina, talvez seja a metáfora mais exata desta “Odisseia”: uma máquina de ver que, para funcionar, precisou primeiro de inventar um modo de continuar a ver o outro.
| Imprensa do Golfo árabe | +1.00 | aligned |
|---|---|---|
| Imprensa indiana e sul-asiática | −0.40 | critical |
| Imprensa europeia continental | +0.20 | neutral |
Dubai celebra o triunfo tecnológico de Nolan, posicionando o filme como um marco global do cinema.
O artigo universaliza uma conquista local ao apresentá-la como um avanço global, ignorando limitações técnicas em outros lugares.
O artigo omite que muitos mercados, incluindo Índia e Itália, não podem exibir o filme no formato IMAX 70mm pretendido, o que enfraquece a narrativa do triunfo universal.
Os fãs indianos lamentam a oportunidade perdida, enfatizando que mesmo com preços altos de ingressos, não podem acessar a visão completa de Nolan.
O artigo destaca a exclusão ao focar em deficiências técnicas e altos custos, criando uma narrativa de vitimização e experiência perdida.
O artigo omite que a conquista técnica do filme ainda é inovadora mesmo em IMAX digital, e que muitos espectadores em todo o mundo ainda o experimentarão em alta qualidade.
Os cinemas italianos não podem fazer justiça à visão de Nolan, mas a grandiosidade do filme ainda é celebrada, criando uma tensão entre limitação local e conquista global.
O bloco usa um duplo registro: um artigo explica criticamente as limitações técnicas, outro exalta a escala do filme, apresentando ambos os lados sem resolver a contradição.
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