
Moscovo contesta Macron e exige que Washington clarifique papel de mediador
Rússia reage às declarações do presidente francês sobre o fim da neutralidade americana e à controvérsia em torno dos acordos da cimeira do Alasca.
A afirmação do presidente francês, Emmanuel Macron, de que os Estados Unidos deixaram de ser um mediador neutro no conflito ucraniano gerou uma série de reações em Moscovo, que questionam a autoridade de Paris para falar em nome de Washington e exigem esclarecimentos sobre o papel americano. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, declarou que Macron não pode atuar como “advogado ou porta-voz” da Casa Branca e sublinhou que a Rússia não recebeu confirmações oficiais de uma mudança de estatuto. O deputado Alexei Chepa, vice-presidente da comissão de relações exteriores da Duma, foi mais longe, aconselhando a não tomar as palavras do líder francês como um facto e manifestando a esperança de um contacto direto entre os presidentes Donald Trump e Vladimir Putin para clarificar a situação.
A controvérsia insere-se num quadro mais amplo de desencontro sobre os resultados da cimeira de 15 de agosto de 2025, em Anchorage, no Alasca. O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, reagiu às declarações do secretário de Estado americano, Marco Rubio, que afirmou não ter havido qualquer acordo naquele encontro, apenas a discussão de propostas. Lavrov considerou “pouco elegante” negar a existência de um entendimento quando, segundo Moscovo, a Rússia aceitou as propostas apresentadas pela parte americana. O chefe da diplomacia russa insistiu que é necessário “clarificar toda esta situação” e que Washington deve definir se é ou não um mediador, recordando que Rubio também admitiu que os EUA não podem ser um intermediário neutro por apoiarem militarmente a Ucrânia.
Na perspetiva de Moscovo, a cimeira do Alasca estabeleceu princípios como a renúncia de Kiev à adesão à NATO e o reconhecimento dos novos territórios sob controlo russo. Contudo, em fevereiro de 2026, a administração Trump ter-se-á distanciado desses “princípios de Anchorage”, segundo Lavrov. Observadores em Lisboa e Brasília notam que a aparente contradição entre as versões americana e russa reflete a complexidade de um processo de mediação em que Washington acumula os papéis de principal fornecedor de armas a Kiev e de interlocutor privilegiado de Moscovo. O Kremlin, embora reconheça que os EUA “não são absolutamente neutros” devido ao fluxo de equipamento militar, continua a valorizar a disponibilidade americana para facilitar um acordo, sobretudo tendo em conta a influência de Washington sobre os aliados europeus e sobre o governo ucraniano.
O impasse coincide com um momento de reorientação de prioridades por parte da Casa Branca. O presidente Trump anunciou que, após a conclusão do conflito com o Irão, os esforços de mediação no dossier ucraniano serão retomados com maior intensidade. Moscovo diz-se aberta a esses bons ofícios, mas sublinha que a mera continuação do envio de armamento torna incompatível uma pretensão de neutralidade absoluta. Do lado ucraniano, o presidente Volodymyr Zelensky reivindica ter retomado a iniciativa no campo de batalha com ataques de drones em profundidade, alegação que a Rússia rejeita, assegurando que alcançará os seus objetivos por via militar caso as negociações fracassem. O dossier permanece, assim, num compasso de espera, com a Rússia a aguardar uma clarificação formal de Washington sobre o seu papel e a Europa a observar os sinais contraditórios que chegam das duas margens do Atlântico.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Moscou argumenta que Washington não pode ser considerado um mediador neutro porque continua fornecendo armas a Kiev. O Kremlin rejeita a afirmação do presidente Macron de que os EUA abandonaram a neutralidade, dizendo que Paris não fala por Washington. A Rússia insiste que aceitou as propostas americanas durante a cúpula no Alasca, contradizendo a negação americana de qualquer acordo, e pede clareza sobre o papel dos EUA.
O presidente Macron declara que os Estados Unidos não são mais neutros em relação à Ucrânia, apoiando agora sua integridade territorial e impondo sanções à Rússia. O chanceler Lavrov exige que Washington esclareça se pretende ser um mediador da paz, depois que o secretário Rubio negou que algum acordo tenha sido alcançado no encontro do Alasca. Os EUA afirmam que continuam prontos para desempenhar um papel construtivo.
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