
BCE sobe juros com inflação ainda elevada, dólar dispara e Argentina enfrenta demanda reprimida por divisas
O euro aproxima-se da paridade de 1,10 dólares, o iene atinge mínimos de 40 anos e empresas argentinas aceleram remessas de lucros, num cenário de políticas monetárias divergentes.
O Banco Central Europeu subiu as taxas de juro em junho, mas as expectativas de inflação dos consumidores da zona euro para os próximos 12 meses recuaram de 4,0% para 3,5% em maio, segundo o inquérito mensal do próprio BCE. A inflação homóloga em Itália atingiu 3,2% no mesmo mês, impulsionada por energia e serviços, enquanto a inflação subjacente subiu para 1,7%. Apesar do alívio nas projeções de curto prazo, a perceção da inflação passada manteve-se nos 4%, o valor mais alto desde julho de 2024, e as expectativas a três e cinco anos permaneceram estáveis em 2,9% e 2,4%, respetivamente.
A decisão de Frankfurt contrasta com o cenário nos Estados Unidos, onde a Reserva Federal, sob a liderança de Kevin Warsh, mantém um tom restritivo. O dólar valorizou 3% no primeiro semestre de 2026, sustentado pela expectativa de pelo menos uma subida de juros este ano e por entradas recorde de 341 mil milhões de dólares em ações americanas. A moeda norte-americana atingiu máximos de 40 anos face ao iene e negoceia perto dos picos anuais contra o euro, que ronda os 1,135 dólares. Em Washington, a força da economia, alimentada pelo investimento em inteligência artificial, continua a atrair fluxos de capital, enquanto a especulação cambial acumulou posições líquidas compradas em dólares no valor de 30 mil milhões de dólares, o ritmo mais rápido desde 2012.
Na América do Sul, a Argentina ilustra os efeitos colaterais dessa dinâmica global. O peso desvalorizou quase 5% em poucas semanas de junho, bem acima da inflação mensal estimada, embora no acumulado do ano a subida do dólar oficial (1,4%) ainda fique aquém da inflação de 16%. O Banco Central argentino identificou uma forte aceleração na procura empresarial por divisas para remeter lucros e dividendos: as compras para esse fim já somam cerca de 3,8 mil milhões de dólares em 2026, o equivalente a quase 90% do total registado em todo o ano de 2016, quando o governo Macri eliminou controlos cambiais. A procura de retalho mantém-se ativa, e o executivo de Javier Milei adia a liberalização total do câmbio para depois das presidenciais de 2027, enquanto tenta reduzir as taxas de juro do crédito para estimular o consumo, travado por níveis elevados de incumprimento entre particulares.
O BCE sinaliza que atuará “reunião a reunião” e dependente dos dados, com a presidente Christine Lagarde a considerar o atual choque inflacionista de menor magnitude do que o anterior. Os mercados financeiros antecipam entre uma e duas subidas adicionais das taxas diretoras na zona euro, com a próxima totalmente incorporada apenas no outono. O próximo marco factual será a divulgação dos dados de inflação de junho na zona euro e a reunião do Conselho do BCE em julho, que poderá confirmar ou adiar novas medidas restritivas.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Os consumidores da zona do euro reduziram acentuadamente as expectativas de inflação de curto prazo em maio, antes mesmo do acordo de cessar-fogo no Oriente Médio. A pesquisa do BCE sugere que as pressões sobre os preços podem estar diminuindo, reduzindo a urgência de novos aumentos de juros. No entanto, o dólar forte continua a pesar sobre o euro e as moedas dos mercados emergentes, complicando as perspectivas.
O dólar avança para o segundo semestre de 2026 em uma onda de excepcionalismo americano, impulsionado por apostas em taxas de juros mais altas nos EUA e uma demanda insaciável por ativos americanos. Essa dinâmica de 'o vencedor leva tudo' está causando sofrimento ao euro e às moedas dos mercados emergentes, revertendo a queda do dólar no ano passado. Nem mesmo a queda dos preços da energia e a redução dos riscos de inflação conseguem interromper a ascensão da moeda americana.
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