
Onda de calor histórica na Europa sobrecarrega hospitais e força cancelamento de eventos
Temperaturas recordes para junho, com picos acima de 40°C, causaram centenas de mortes e levaram à proibição de álcool em Paris e ao adiamento de competições desportivas.
A temperatura atingiu 41,3°C em Saarbrücken, na Alemanha, na sexta-feira, o valor mais alto alguma vez registado no país durante o mês de junho, enquanto o Reino Unido superou o recorde mensal pelo terceiro dia consecutivo, com 36,9°C em Suffolk. Em França, a média nacional de 30°C na quinta-feira igualou o dia mais quente desde o início das medições, em 1947. O impacto imediato nos sistemas de saúde é mensurável: em Paris, os casos de paragem cardíaca quadruplicaram num só dia e as urgências hospitalares aproximam-se da saturação. As autoridades espanholas contabilizaram 212 mortes atribuíveis ao calor entre domingo e quarta-feira, enquanto em França pelo menos 55 pessoas morreram afogadas ao procurar alívio em rios e lagos não vigiados.
A onda de calor é alimentada por um bloqueio atmosférico em ómega, que aprisiona uma massa de ar quente vinda do norte de África sobre a Europa Ocidental. Cientistas da rede World Weather Attribution concluíram que o episódio teria sido “virtualmente impossível” sem as alterações climáticas de origem humana. O estudo, divulgado na sexta-feira, indica que as temperaturas diurnas são agora 3,5°C mais elevadas do que seriam em 1976 e que as noites quentes se tornaram cerca de cem vezes mais prováveis do que em 2003. A Europa aquece ao dobro da média global, segundo o serviço Copernicus, e o mês de junho está a aquecer mais rapidamente do que qualquer outro.
A pressão sobre infraestruturas e economia alastra. Na Alemanha, o calor deformou o asfalto da autoestrada A2, danificando dezenas de veículos, e a operadora ferroviária recomendou o adiamento de viagens. Os Países Baixos emitiram o primeiro alerta vermelho da sua história. Na Suíça, a central nuclear de Beznau desligou os dois reatores porque a temperatura do rio Aare atingiu 25°C, valor considerado demasiado elevado para a refrigeração. A seguradora Allianz estima que o stress térmico pode custar 240 mil milhões de dólares à economia francesa até 2030, com os setores da construção e da agricultura entre os mais expostos. Em contraste, o mercado de aparelhos de ar condicionado regista um crescimento acelerado no norte da Europa, onde apenas 20% das habitações dispõem do equipamento, face a 90% nos Estados Unidos.
As autoridades reagiram com medidas de emergência. A polícia de Paris proibiu o consumo de álcool na via pública e forçou o adiamento da Marcha do Orgulho e do festival Solidays, para aliviar a pressão sobre os hospitais. O meeting de atletismo da Diamond League foi mantido num formato adaptado, apenas com atletas de elite. Em Itália, dezoito cidades foram colocadas em alerta vermelho, enquanto o Pride de Milão se manteve, com restrições à venda de bebidas alcoólicas. O governo francês anunciou a compra de 30 mil aparelhos de ar condicionado para hospitais e um investimento de 80 milhões de euros em sistemas de refrigeração para escolas e creches.
A Organização Meteorológica Mundial advertiu que fenómenos como este “terão de se tornar habituais”. A vaga de calor desloca-se agora para leste: a República Checa e a Hungria preparam-se para máximas acima dos 40°C no fim de semana. Os sindicatos franceses exigem a fixação legal de uma temperatura máxima nos locais de trabalho. O próximo marco a observar é a resposta dos governos da Europa Central e Oriental à pressão sobre os serviços de emergência, bem como a eventual adoção de planos de adaptação urbana que reduzam a vulnerabilidade a episódios extremos cada vez mais frequentes.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A onda de calor está sobrecarregando os serviços de emergência, forçando as autoridades a proibir o álcool e cancelar eventos como a Parada do Orgulho. Os hospitais estão lotados e as mortes por afogamento disparam enquanto as pessoas buscam qualquer água para se refrescar. A situação é descrita como dramática e sem precedentes.
A onda de calor recorde é um risco econômico estrutural para a Europa, prejudicando a produtividade e o crescimento. Os cientistas confirmam que a mudança climática é inequivocamente a causa das temperaturas extremas, que seriam quase impossíveis décadas atrás. O envelhecimento da população e a baixa penetração de ar condicionado tornam o continente altamente vulnerável.
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