
Morre Victor Willis, a voz do 'YMCA' que uniu pistas de dança e palanques políticos
O cantor e coautor do clássico da disco music, que se tornou símbolo da comunidade gay e mais tarde trilha de campanhas de Donald Trump, faleceu aos 74 anos na véspera do seu aniversário.
O gesto é universal: braços erguidos a desenhar no ar as letras Y, M, C e A, coreografia que atravessou gerações e continentes desde o final dos anos 1970. Na terça-feira, 30 de junho de 2026, a mão que ajudou a criar esse movimento calou-se. Victor Willis, vocalista original e coautor do tema que se tornou um dos maiores fenómenos da música popular, morreu em casa, um dia antes de completar 75 anos, vítima do que a família descreveu como “uma doença curta, mas agressiva”. A notícia foi partilhada pela própria banda nas redes sociais, num pedido de privacidade que contrastava com a exposição planetária da sua obra.
Willis nasceu no Texas, filho de um pastor batista, e começou a cantar gospel na igreja do pai antes de se aventurar pelo jazz, pelo soul e pelos palcos da Broadway. Em 1977, o produtor francês Jacques Morali convidou-o para dar voz a um projeto que misturava música disco com personagens inspiradas em estereótipos masculinos. Willis tornou-se o “polícia” dos Village People, mas também o almirante, e coescreveu êxitos como “Macho Man”, “In the Navy” e “Go West”. A sua voz potente e rasgada ancorou o álbum de estreia, gravado praticamente a solo, e impulsionou a banda para um sucesso global que vendeu mais de 100 milhões de discos.
“YMCA”, lançada em 1978, rapidamente extravasou as pistas de dança. Nos Estados Unidos, foi adotada como hino pela comunidade gay, que via na letra um convite velado aos encontros nos albergues da Associação Cristã de Moços. Willis, porém, rejeitou essa leitura durante décadas e, em 2024, ameaçou processar quem a classificasse como tal. A canção ganhou uma segunda vida inesperada quando Donald Trump a incorporou nos seus comícios, primeiro em 2020 e depois de forma sistemática na campanha de 2024. O então candidato desenvolveu uma dança própria — um bambolear rígido de ancas com punhos cerrados — e a banda, após inicialmente pedir que cessasse o uso, acabou por atuar ao vivo no comício de vitória em janeiro de 2025. “Não somos um grupo político”, justificou Willis, sublinhando que a música devia unir o país.
A relação ambígua com o poder não apagou a dimensão festiva do tema. No Brasil, “YMCA” é presença obrigatória em casamentos e formaturas, coreografada com o mesmo entusiasmo com que se dança em festas populares portuguesas ou em animações de rua na África lusófona. A Biblioteca do Congresso dos EUA incluiu a gravação no Registo Nacional de Gravações em 2020, e a canção entrou para o Grammy Hall of Fame. A notícia da morte de Willis gerou reações em cadeia: Trump lamentou a perda de um “tipo genial e alegre”, enquanto fãs recordavam os tempos em que o cantor, afastado do grupo entre 1980 e 2017, travou batalhas judiciais para recuperar os direitos de autor das suas composições — uma luta que venceu parcialmente em 2015, obtendo 50% dos direitos sobre 13 canções.
Aos 74 anos, Willis partiu na véspera do aniversário, deixando a mulher, Karen, e um legado sonoro que continua a ecoar em estádios, salões e manifestações políticas. A banda pediu que se respeitasse o luto, mas a imagem que persiste é a de um palco vazio onde, durante quase meio século, um homem fardado de polícia ergueu os braços e convidou o mundo a soletrar a alegria.
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