
Mercados emergentes atraem capital, mas esbarram em fragilidades digitais e de crédito
Enquanto Brasil e Indonésia registram entradas recordes de investimento estrangeiro, Argentina e Irão enfrentam crises de inadimplência e ciberataques que expõem a vulnerabilidade dos sistemas financeiros.
O primeiro semestre de 2026 revelou um cenário bifurcado para as economias emergentes: de um lado, a atração de capital estrangeiro em níveis históricos; de outro, o agravamento de tensões financeiras domésticas, da inadimplência das famílias a falhas críticas na infraestrutura digital. O Brasil captou 17,8 mil milhões de dólares em investimento líquido no período, o maior fluxo em oito anos, impulsionado pelo diferencial de juros e pela posição neutra do país na guerra comercial, segundo analistas em São Paulo. A Indonésia, por sua vez, realizou 1.010,6 biliões de rupias em investimentos, quase metade da meta anual, sustentada pelo mercado interno e pela agenda de transformação de recursos minerais.
Esse apetite externo contrasta com a pressão sobre os balanços das famílias. Na Argentina, a carteira de crédito às famílias atingiu 15,9% de irregularidade em maio, afetando 5,3 milhões de pessoas, com os jovens entre 18 e 30 anos como o segmento mais exposto. Observadores em Buenos Aires associam o salto — de 3,4% em novembro de 2024 para o patamar atual — à queda da renda real, à deterioração do emprego formal e ao encarecimento do crédito. As fintechs, que atendem um perfil de maior risco, registam 28,4% de clientes em mora, enquanto os bancos tradicionais permanecem em 20%. A situação alimenta o debate sobre a necessidade de estabilidade macroeconómica e regras claras para destravar o investimento em infraestrutura, condição que câmaras empresariais e sindicatos argentinos consideram indispensável para retomar o crescimento.
No Brasil, o ambiente de juros elevados que atrai o capital estrangeiro também coincide com um aumento de 10% nos indícios de fraudes financeiras no primeiro semestre, totalizando mais de 9 milhões de ocorrências. O crescimento reflete, em parte, o fortalecimento dos mecanismos de deteção após a Resolução 501 do Banco Central, que ampliou a partilha de informações entre instituições. O telemóvel foi o canal utilizado em 78% dos golpes, e a engenharia social respondeu por 40% dos casos. Jovens de 18 a 34 anos representam quase metade das vítimas, e um quarto delas sofreu reincidência, evidenciando a necessidade de prevenção num ecossistema financeiro cada vez mais digitalizado.
No Irão, a vulnerabilidade digital assumiu outra forma: uma interrupção prolongada nos serviços de quatro grandes bancos — Melli, Saderat, Tejarat e Tose'e Saderat — foi atribuída a um ciberataque contra uma infraestrutura de comunicação partilhada. O incidente, iniciado em 13 de junho, arrastou-se por quase um mês, gerando devolução de cheques, penalizações por atraso em prestações e paralisação de negócios. O porta-voz do Judiciário iraniano anunciou uma investigação formal para apurar responsabilidades, enquanto legisladores apontaram a dependência de mainframes IBM como fator de risco. Ainda que não se tenha confirmado acesso a dados de clientes, o episódio expôs a fragilidade de sistemas financeiros concentrados.
O próximo semestre testará a capacidade dessas economias de converter influxos de capital em projetos produtivos sem descuidar da resiliência operacional. Na Indonésia, o foco desloca-se para a execução acelerada dos investimentos, com alertas de Jacarta sobre a necessidade de simplificar licenciamentos e garantir segurança jurídica. No Brasil, a perspetiva de cortes na Selic e de eventual alta de juros nos Estados Unidos pode reduzir o diferencial que hoje ancora o real. Para a Argentina, o desafio é duplo: conter a escalada da inadimplência e criar as condições de previsibilidade que as câmaras empresariais exigem para financiar a infraestrutura de que o país carece.
| Imprensa latino-americana | +0.20 | neutral |
|---|---|---|
| Imprensa do Sudeste Asiático | +0.60 | aligned |
| Imprensa iraniana e afins | −0.70 | critical |
A América Latina equilibra otimismo e cautela: celebra os fluxos de capital no Brasil enquanto denuncia o aumento da inadimplência na Argentina, argumentando que a estabilidade depende de regras claras.
Ao justapor sucesso e fracasso, a narrativa se apresenta como objetiva e equilibrada, implicando que os problemas da região são solucionáveis através da disciplina política.
Omite o ataque cibernético iraniano à infraestrutura bancária e o foco indonésio na certeza regulatória, restringindo a história à gestão econômica interna.
A Indonésia se apresenta como um destino de investimento resiliente: os números recordes comprovam sua atratividade, mas agora o foco deve se deslocar para a certeza regulatória para garantir a realização dos projetos.
Ao destacar as aprovações de especialistas e dados positivos, a narrativa constrói credibilidade, enquanto o reconhecimento dos desafios futuros adiciona realismo e confiabilidade.
Omite a crise bancária iraniana e os problemas de inadimplência na América Latina, concentrando-se exclusivamente no sucesso indonésio.
O Irã sofre um ataque cibernético direcionado aos seus bancos: o judiciário se mobiliza para proteger os cidadãos e responsabilizar os agressores, enquadrando o evento como uma agressão externa.
Ao detalhar as dificuldades pessoais e as perdas financeiras, a narrativa gera empatia e legitima a intervenção estatal, enquanto a atribuição do ataque a forças externas unifica a história nacional.
Omite os fluxos de capital positivos no Brasil e a resiliência dos investimentos na Indonésia, isolando o caso iraniano como o único exemplo de instabilidade.
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