
Legislativas na Argélia decorrem sob apatia popular e à sombra do Mundial
Com 24,7 milhões de eleitores, a votação para a Assembleia Popular Nacional é ofuscada pelo jogo da seleção argelina contra a Suíça, enquanto novas regras eleitorais excluíram centenas de candidaturas.
Os argelinos foram chamados às urnas esta quinta-feira para eleger os 407 deputados da Assembleia Popular Nacional, num escrutínio que, segundo observadores internacionais, decorre sob um manto de indiferença popular. A coincidência com o jogo dos oitavos de final do Mundial de futebol, que opõe a Argélia à Suíça na madrugada de sexta-feira, captou mais a atenção do que a campanha, segundo analistas magrebinos. Andrew Farrand, investigador do Atlantic Council, afirmou que “toda a sociedade está a olhar para o futebol e quase ninguém para as eleições”, ilustrando o descrédito de uma parte significativa do eleitorado quanto à capacidade do voto influenciar questões como habitação e economia.
O ato eleitoral decorre sob um quadro legal revisto. A nova lei eleitoral limitou a dois os mandatos parlamentares e reforçou o controlo sobre o financiamento e a probidade dos candidatos. A ANIE rejeitou cerca de 30% das listas, incluindo figuras da maioria e da oposição, sob a justificação de ligações a “dinheiro corrupto” ou incumprimentos formais. A imprensa estatal vê nisso uma renovação da classe política, com 54% de candidatos jovens entre os quase dez mil postulantes. Contudo, partidos como o RCD e o FFS, que regressaram após boicotes, tiveram várias listas invalidadas, o que, na perspetiva de analistas europeus, reduz a competitividade real do pleito.
O contexto político mais amplo é o de um regime que, segundo Farrand, combinou “pau e cenoura” para desmobilizar o movimento Hirak, que em 2019 forçou a saída de Bouteflika. A desilusão com a transição persiste, e a abstenção deverá ser novamente elevada — em 2021, a participação não ultrapassou 23%. O Presidente Tebboune tem apostado na abertura controlada e nas receitas energéticas para acalmar tensões sociais, enquanto promove reformas institucionais. A imprensa governamental apresenta estas eleições como um passo na construção de “uma nova Argélia”, com um parlamento mais técnico e menos permeável a interesses particulares.
Os resultados provisórios serão anunciados pela ANIE nas 48 horas seguintes ao fecho das urnas, e os definitivos caberão ao Tribunal Constitucional em dez dias. A maioria dos observadores antecipa uma vitória das formações próximas do poder, com a FLN e o RND a liderarem, mas a grande incógnita reside na taxa de participação, que poderá ditar a legitimidade do futuro hemiciclo. A diáspora, com 854 mil eleitores, também vota, mas o seu peso é limitado. A próxima legislatura terá a tarefa de acompanhar a diversificação económica e a revisão do modelo social, num momento em que, como sublinham analistas do Norte de África, a estabilidade política continua a depender mais da redistribuição de rendas do que da vitalidade democrática.
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