
Iraque e EUA firmam 48 acordos para reativar oleoduto e contornar o Estreito de Ormuz
A visita do primeiro-ministro Ali al-Zaidi a Washington resultou num pacote de cooperação energética que visa desviar até dois milhões de barris diários de crude iraquiano do bloqueado Estreito de Ormuz.
O Iraque e os Estados Unidos assinaram 48 acordos, memorandos de entendimento e declarações de parceria durante a visita do primeiro-ministro Ali al-Zaidi a Washington, num movimento que altera a arquitetura energética do Médio Oriente. O eixo central do pacote é a reabilitação do oleoduto Kirkuk-Baniyas, que liga os campos petrolíferos do norte iraquiano ao porto sírio de Baniyas, no Mediterrâneo. A infraestrutura, inoperacional desde os bombardeamentos da invasão americana de 2003, será recuperada por um consórcio internacional liderado por empresas norte-americanas, com uma capacidade inicial projetada de dois milhões de barris por dia. O projeto, apoiado pelo Departamento de Estado, é descrito por Washington como uma prioridade estratégica bilateral e regional.
Na perspetiva de Bagdade, a urgência do projeto decorre do colapso das exportações petrolíferas após o encerramento do Estreito de Ormuz, na sequência do conflito entre os Estados Unidos e o Irão. O crude representa mais de 90% das receitas do Estado iraquiano, e o Banco Mundial estima uma contração do PIB de 8,9% este ano devido à paralisação das vendas. O oleoduto oferece uma via de exportação alternativa que reduz a dependência do estreito, complementando as negociações com a Turquia para um segundo corredor terrestre. O enviado especial norte-americano, Tom Barrack, afirmou que o plano mais amplo, coordenado com a Síria, Jordânia, Turquia, Líbano e Egito, tornará Ormuz uma rota “secundária” no prazo de dois anos, integrando ainda um “corredor médio” para o transporte de gás da Ásia Central para a Europa.
Para Damasco, o acordo representa uma oportunidade de recuperar receitas de trânsito e de se reposicionar como corredor energético regional, num momento em que o novo governo procura legitimação externa. Observadores em Teerão, porém, interpretam o movimento como um cerco económico. A agência oficial iraniana reagiu com críticas duras à visita de al-Zaidi, classificada como uma “grande vergonha” pelo conselheiro do Líder Supremo, Ali Akbar Velayati, que acusou o primeiro-ministro iraquiano de ignorar o luto pela morte do antigo guia iraniano. A tensão é amplificada pelo compromisso de al-Zaidi, que ascendeu ao poder com o aval de Washington, de desarmar as milícias pró-iranianas que operam no Iraque.
O pacote de 48 instrumentos inclui ainda acordos com a ExxonMobil, Halliburton, Shell e GE Vernova para o desenvolvimento de campos petrolíferos e de gás, bem como a introdução dos serviços de internet por satélite da Starlink no país. A maioria dos documentos tem caráter preliminar ou não vinculativo, remetendo para negociações futuras. O próximo marco factual será a conclusão dos estudos técnicos e financeiros pelo consórcio liderado pela Chevron, que definirá o traçado, os custos e o calendário de construção, enquanto al-Zaidi prossegue a sua deslocação para o Qatar e o Irão, onde a viabilidade política do projeto será testada.
| Imprensa atlântica / anglosfera | +0.80 | aligned |
|---|---|---|
| Imprensa iraniana e afins | −0.70 | critical |
| Imprensa do Golfo árabe | +0.50 | aligned |
| Imprensa árabe Levante-Magrebe | +0.20 | neutral |
Os Estados Unidos celebram o acordo como uma vitória estratégica que fortalece a sua influência no Médio Oriente e reduz a dependência do Estreito de Ormuz.
A ênfase no valor de 60 mil milhões de dólares e na participação de grandes empresas como a Chevron cria uma narrativa de sucesso económico e segurança energética, obscurecendo as implicações geopolíticas para o Irão.
O bloco atlântico omite as preocupações iranianas sobre a marginalização do Estreito de Ormuz e as sanções ainda em vigor contra a Síria.
O Irão denuncia o acordo como uma manobra hostil dos Estados Unidos para isolar Teerão e controlar as rotas energéticas.
A narrativa centra-se na ameaça à soberania iraniana e à estabilidade regional, utilizando uma linguagem de 'tentativa direta' e 'minar' para criar um sentido de urgência e vitimização.
O Irão omite os benefícios económicos para o Iraque e o facto de o projeto ter sido discutido abertamente com empresas americanas, não em segredo.
Os estados do Golfo acolhem favoravelmente o acordo como uma oportunidade para diversificar as rotas energéticas e fortalecer a cooperação regional.
O artigo utiliza a declaração da embaixada americana para legitimar o projeto como parte de uma visão mais ampla, minimizando potenciais tensões com o Irão.
O bloco do Golfo omite as preocupações iranianas e o facto de o oleoduto atravessar a Síria, um país ainda sob sanções internacionais.
O acordo é apresentado como um passo técnico para melhorar as exportações iraquianas, com o endosso do Departamento de Estado dos EUA a conferir legitimidade.
Ao citar diretamente o Departamento de Estado dos EUA e descrever o projeto como 'estratégico', o relatório confere legitimidade sem adicionar comentários críticos.
O bloco árabe Levante-Magrebe omite a discussão sobre as implicações para o Irão ou as sanções à Síria, mantendo um tom neutro.
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