
Irão condiciona acordo nuclear à reciprocidade dos EUA e trava negociações em Doha
Presidente Pezeshkian rejeita alegação de Trump sobre desnuclearização e vincula avanço diplomático à implementação do memorando de cessar-fogo assinado em Islamabad.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou que o Irão só cumprirá os compromissos do memorando de entendimento (MoU) de 18 de junho se os Estados Unidos fizerem o mesmo, rejeitando a alegação de Donald Trump de que Teerã aceitou a desnuclearização e participaria de conversações em Doha. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmaeil Baghaei, descartou contactos técnicos iminentes com Washington, condicionando qualquer negociação à implementação integral dos 14 pontos do acordo.
Na perspetiva de Teerã, o memorando — mediado pelo Paquistão e pelo Catar — é um instrumento de desescalada que prevê o fim das hostilidades, o levantamento do bloqueio naval, o alívio de sanções e a libertação de ativos congelados, em troca do compromisso iraniano de não procurar armas nucleares. A administração Trump, contudo, apresentou a reunião de Doha como um passo rumo à “desnuclearização do Irão”, garantindo que o país “não terá armas nucleares”. Observadores em Moscovo, que saudaram o acordo, notam que a divergência de narrativas reflete uma disputa sobre a sequência das concessões: enquanto Washington quer avançar para o dossier nuclear, o Irão exige primeiro a concretização das contrapartidas económicas e de segurança.
O impasse tem implicações diretas para a estabilidade do Estreito de Ormuz, via por onde transita cerca de um quinto do petróleo mundial. Para o Brasil e Portugal, importadores líquidos de energia, a manutenção do cessar-fogo é crucial para evitar choques de preços. Analistas em Brasília avaliam que a indefinição pode adiar a normalização dos fluxos de exportação iraniana, enquanto em Lisboa se acompanha com atenção o risco de reacendimento do conflito, que afetaria a segurança energética europeia.
O MoU estabelece um período de trinta dias para negociar um acordo abrangente, com prazo até 16 de agosto, e prevê o abandono do enriquecimento de urânio por parte do Irão por um período de cinco a quinze anos. Até ao momento, porém, a implementação das cláusulas iniciais permanece por cumprir, segundo Teerã. O porta-voz iraniano reiterou que “a bola está no campo americano”, enquanto Washington não se pronunciou oficialmente sobre as exigências. A próxima etapa concreta depende de gestos de reciprocidade que, por ora, não se materializaram.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Teerã insiste que qualquer acordo com Washington deve ser construído sobre respeito mútuo e compromissos recíprocos. A mensagem do presidente iraniano enquadra os EUA como a parte que deve primeiro provar seu compromisso, enquanto descarta as ameaças americanas como irracionais. A narrativa coloca o ônus claramente sobre Washington para honrar o memorando existente antes que novas conversas possam avançar.
Alegações contraditórias surgem de Washington e Teerã às vésperas das conversações de Doha, com o presidente Trump afirmando que o Irã concordou com a desnuclearização, enquanto o presidente Pezeshkian condiciona o cumprimento à adesão dos EUA ao memorando de 18 de junho. A reportagem destaca a lacuna entre as duas narrativas sem tomar partido, apontando a reunião no Catar como um teste da sinceridade de ambas as partes.
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