
IA deslocará 15 milhões de postos nos EUA, mas métricas contraditórias dificultam diagnóstico global
Projeção do Goldman Sachs quantifica o choque no mercado de trabalho americano, enquanto inquéritos na Ásia e na Europa revelam aceleração da formação e exigência de novas competências, mas sem consenso sobre o efeito líquido no emprego.
A inteligência artificial deverá deslocar 15 milhões de trabalhadores nos Estados Unidos, o equivalente a 9% da força de trabalho, segundo projeção do Goldman Sachs Research. O número, que compara a escala da transformação à viragem tecnológica do final dos anos 1990, contrasta com a dificuldade de investigadores e institutos oficiais em captar, em tempo real, o efeito agregado da tecnologia sobre o emprego, a produtividade e a inflação. Dados do Census Bureau e de inquéritos privados nos EUA mostram sinais contraditórios: enquanto alguns setores registam cortes de 10 mil a 15 mil postos por mês atribuíveis à IA, outras fontes sugerem que as empresas estão a contratar mais precisamente por causa da tecnologia. Perante a incerteza, um grupo bipartidário de senadores apresentou em junho um projeto de lei para expandir a recolha de dados e obrigar o governo federal a produzir um relatório anual sobre o efeito da IA na força de trabalho.
A pressão para agir sem um diagnóstico completo é visível em várias economias. Em Hong Kong, as horas médias de formação por trabalhador atingiram 19,4 em 2025, o valor mais elevado desde 2011, impulsionadas pela dupla aposta em inteligência artificial e competências interpessoais. Na China continental, quatro em cada dez vagas para recém-licenciados já exigem conhecimentos em IA, contra três em dez no ano anterior, com Pequim a liderar a procura. Um inquérito global com mais de 12 mil executivos revela que 99% esperam redução de efetivos nos próximos dois anos, mas as organizações que obtêm maiores ganhos são as que redesenham processos e mapeiam lacunas de competências antes de automatizar.
A adaptação no terreno expõe assimetrias. No Brasil, docentes incorporam ferramentas de IA para gerir jornadas extensas e turmas numerosas, mas fazem-no sem articulação com as redes de ensino, deslocando o debate da inovação para as condições concretas de trabalho. Na Suécia, um relatório da Microsoft indica que mais de metade dos trabalhadores já executa tarefas que não podiam realizar há um ano; no entanto, apenas um em cada cinco utilizadores de IA sente que as chefias são claras quanto ao uso da tecnologia. Em França, o domínio da IA tornou-se critério de contratação para assistentes de direção, função exposta a informação confidencial e a decisões estratégicas. Na Rússia, as empresas migram para modelos de contratação baseados em competências, avaliando candidatos por testes práticos e não apenas por currículos, cuja fiabilidade diminuiu com a facilidade de os otimizar via IA.
Enquanto o mercado se reconfigura, os laboratórios de IA procuram tornar os sistemas mais confiáveis. Modelos de empresas como Anthropic, Google DeepMind e OpenAI estão a ser treinados para estimar a própria incerteza e, quando a informação é insuficiente, responder “não sei” em vez de produzir conteúdos incorretos. A calibração de confiança é vista como um pilar para aplicações críticas em medicina, direito e engenharia, embora nenhum sistema consiga ainda identificar todas as situações de risco de erro.
O próximo marco regulatório a observar é a tramitação do projeto de lei norte-americano que obrigaria o governo a publicar um relatório anual sobre o impacto da IA no mercado de trabalho. A iniciativa responde ao diagnóstico de que, sem métricas oficiais e comparáveis, as decisões de política pública continuarão a ser tomadas, como advertiu o senador Mark Kelly, “no escuro”.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Um importante CEO de tecnologia alerta que a IA avançada eliminará metade de certas categorias de emprego e que 90% dos funcionários não possuem as competências necessárias em IA. Isto é descrito como um momento darwiniano em que apenas aqueles que se adaptam sobreviverão profissionalmente.
A transformação do trabalho pela IA é inevitável, mas o verdadeiro desafio está nas competências, na liderança e na responsabilidade. Em vez de nos concentrarmos na tecnologia em si, o debate deve centrar-se no reforço das capacidades humanas e em garantir que a IA sirva objetivos sociais. Casos concretos, como os assistentes de direção, mostram como as profissões estão a evoluir com necessidade de pensamento crítico e confidencialidade dos dados.
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