
EUA retomam envio de dólares ao Iraque após pressão sobre laços com Irã
Transferências foram suspensas em abril para forçar Bagdá a conter milícias pró-iranianas; retomada coincide com ofensiva anticorrupção do novo premiê.
Os Estados Unidos retomaram o envio de carregamentos aéreos de dólares ao Iraque, após uma suspensão de vários meses que visava pressionar o governo iraquiano a distanciar-se do Irã, segundo a imprensa norte-americana. O porta-voz do primeiro-ministro Ali al-Zaidi, Haider al-Aboudi, confirmou que “as remessas de dólares para o Iraque foram retomadas” e que “o problema foi resolvido”. O conselheiro financeiro Mudhar Muhammad Salih corroborou a informação. A suspensão, iniciada em abril, incluiu o bloqueio de uma remessa de cerca de 500 milhões de dólares e o congelamento de receitas da venda de petróleo iraquiano, além da paralisação de parte da cooperação com os serviços de segurança — medida que, de acordo com uma fonte oficial iraquiana anônima citada pela mídia dos EUA, continua em vigor.
Na perspetiva de Washington, a interrupção dos fluxos de divisas foi uma resposta ao contrabando de dólares por milícias apoiadas pelo Irã e uma alavanca para influenciar a escolha do novo primeiro-ministro, bloqueando candidaturas consideradas simpáticas a Teerã. A administração Trump também exigiu que Bagdá contivesse grupos armados que atacaram alvos americanos no país. Do lado iraquiano, al-Zaidi — empossado no final de abril e sem oposição explícita dos EUA — lançou uma vasta campanha anticorrupção com dezenas de detenções de políticos, deputados e funcionários, sobretudo ligados ao setor petrolífero. Foram apreendidos 15 milhões de dólares em espécie na residência de uma parlamentar e outros 4 milhões num veículo, segundo fontes de segurança citadas pela imprensa local. O conselheiro do premiê, Munir Haddad, afirmou à agência estatal INA que o orçamento iraquiano perdeu mais de 2 biliões de dólares desde 2003 devido à corrupção, e que as detenções prosseguem diariamente em sigilo.
Analistas em Moscovo avaliam que a ofensiva anticorrupção serve para consolidar a posição de al-Zaidi, reconquistar a confiança dos EUA e demonstrar capacidade de gerir de forma responsável potenciais investimentos americanos, além de responder à inflação crescente e a promessas eleitorais. A imprensa russa também menciona uma eventual cooperação não declarada entre as forças de segurança iraquianas e o FBI no combate à lavagem de dinheiro. A campanha abrange figuras de diferentes espetros políticos: entre os detidos há tanto personalidades próximas do Irã como políticos sunitas, o que indica um alcance transversal. A dimensão do problema é sublinhada por um escândalo revelado em 2024 pelo jornal britânico The Guardian, segundo o qual funcionários da ONU no Iraque exigiram subornos de até 15% do valor de contratos no âmbito de um programa de estabilização de 1,9 mil milhões de dólares.
A retoma das transferências de dólares ocorre num quadro de novas regras bancárias internacionais, acordadas entre os EUA e o Iraque, que impõem maior transparência às transferências a partir da conta do banco central iraquiano no Federal Reserve de Nova Iorque. O objetivo declarado é travar o fluxo ilícito de divisas para grupos criminosos e milícias armadas em países vizinhos, incluindo o Irã. Enquanto os carregamentos de numerário foram retomados, a suspensão da cooperação e do financiamento aos serviços de segurança iraquianos permanece, segundo fontes oficiais. O primeiro-ministro al-Zaidi já ordenou que todas as milícias no país fiquem sob autoridade direta do Estado, e os futuros processos judiciais contra os acusados de corrupção serão públicos, de acordo com o seu gabinete.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Os Estados Unidos retomaram as transferências de dólares para o Iraque após uma suspensão de meses que visava pressionar Bagdá a se distanciar do Irã. A decisão reflete um reajuste pragmático da relação bilateral, com autoridades iraquianas confirmando a retomada dos envios. A medida ocorre após passos iraquianos para conter a influência iraniana, embora o escopo total da campanha anticorrupção permaneça incerto.
O orçamento iraquiano perdeu mais de dois trilhões de dólares desde 2003 devido à corrupção sistêmica, com dezenas de altos funcionários e parlamentares presos recentemente. A escala do saque é impressionante: a esposa de um detido comprou um apartamento de cinquenta milhões de dólares, enquanto vários funcionários possuíam mais de cinquenta imóveis cada. A retomada das transferências de dólares americanos é uma nota de rodapé nessa pilhagem de décadas dos recursos estatais, gerando profundo ceticismo sobre qualquer mudança anticorrupção genuína.
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