
De Lipari a Tóquio: o cinema global reescreve mitos e recordes
Enquanto Christopher Nolan filma a Odisseia na Sicília, cinebiografias e comédias indianas redefinem as bilheteiras mundiais, da nostalgia de Michael Jackson ao fenómeno de Ranveer Singh no Japão.
Na ilha de Lipari, ao largo da Sicília, a equipa de Christopher Nolan montou o cenário para um dos episódios mais antigos da literatura ocidental: o encontro de Odisseu com as sereias. As rochas vulcânicas e o mar Jónico serviram de palco a Matt Damon, no papel do herói grego, enquanto o realizador britânico-americano procurava capturar o canto que, segundo Homero, enlouquecia os marinheiros. A escolha do local, confirmada pela produção, transformou a paisagem mediterrânica numa máquina do tempo cinematográfica, onde um poema de quase três milénios ganha nova carne.
O filme, simplesmente intitulado “Odissea”, chega aos cinemas italianos a 16 de julho com um orçamento superior a 250 milhões de dólares e um elenco que inclui Tom Holland, Zendaya, Anne Hathaway e Robert Pattinson. Nolan descreveu a responsabilidade de adaptar o texto homérico como “enorme”, sublinhando que “não é simplesmente uma história, é a história”. A imprensa italiana adianta que a narrativa manterá a estrutura não linear característica do realizador, ecoando a própria fragmentação temporal do poema. Contudo, a produção não escapou a controvérsias: a participação do ator transgénero Elliot Page num papel masculino ainda não revelado e a escolha do rapper Travis Scott para o aedo Demódoco geraram debate, enquanto Elon Musk atacou publicamente Nolan pela inclusão da atriz negra Lupita Nyong’o, acusando-o de procurar agradar à Academia de Hollywood — crítica que o realizador ignorou.
Enquanto o épico grego se prepara para estrear, outras mitologias contemporâneas reescrevem os recordes das bilheteiras. A cinebiografia “Michael”, realizada por Antoine Fuqua, tornou-se o biopic mais rentável de sempre, ultrapassando os 977 milhões de dólares de “Oppenheimer” e relegando “Bohemian Rhapsody” para segundo plano. O filme, protagonizado por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor, foi acusado por críticos anglófonos de branquear as acusações de abuso sexual que perseguiram a estrela pop, mas o público respondeu com entusiasmo: as plataformas de streaming registaram um pico de audições de Michael Jackson, e o álbum “The Essential” regressou ao topo das tabelas britânicas.
No circuito indiano, a diversidade de géneros confirma um ecossistema em ebulição. A comédia coral “Welcome to the Jungle”, com Akshay Kumar e um elenco de mais de trinta atores, aproxima-se dos 900 milhões de rupias líquidas na Índia na sua primeira semana, beneficiando de promoções agressivas nos multiplexes. O drama romântico “Cocktail 2”, com Shahid Kapoor e Kriti Sanon, já ultrapassou 1,34 mil milhões de rupias brutas a nível global, enquanto o thriller de espionagem “Dhurandhar”, protagonizado por Ranveer Singh, acumulou mais de 13 mil milhões de rupias e prepara-se para estrear no Japão a 10 de julho. Aí, o cinema indiano goza de um culto singular: “RRR” continua a ser o filme indiano mais visto de sempre no país, com 2,42 mil milhões de ienes, e Singh convidou pessoalmente os fãs japoneses, em vídeo, a assistirem ao que descreveu como “o maior filme indiano de todos os tempos”.
De Lipari a Tóquio, o cinema alimenta-se de regressos. Odisseu procurava Ítaca; Michael Jackson reencontra os palcos através do sobrinho; as famílias indianas reúnem-se em salas escuras para rir com as desventuras de um falso batalhão na selva. A paisagem sonora de Ludwig Göransson para Nolan e a fotografia de Hoyte van Hoytema prometem envolver o espectador numa viagem tão sensorial como a das sereias. Resta saber se, tal como o herói grego, estas narrativas conseguirão resistir ao canto fácil da polémica e ancorar no imaginário coletivo com a força de um mito.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A imprensa europeia enquadra a Odisseia de Nolan como um evento cultural de primeira grandeza, enraizado no cânone literário ocidental. O tom é de antecipação informada, sublinhando o prestígio do realizador e o significado intemporal da epopeia.
A imprensa da África subsaariana celebra o biopic de Michael Jackson como um triunfo histórico de bilheteira, ultrapassando até Oppenheimer. O sucesso é enquadrado como um testemunho do legado global duradouro do Rei da Pop.
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