
EUA chegam aos 250 anos com orgulho nacional em mínimos e disputa sobre o legado fundador
Sondagens revelam pessimismo recorde enquanto administração Trump removeu painéis sobre escravatura e transformou a celebração oficial em palco de divisão partidária.
A poucos dias do 4 de julho, a comemoração dos 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos é atravessada por uma decisão concreta e suas consequências jurídicas: o Serviço Nacional de Parques removeu, em janeiro, 34 painéis educativos da Casa do Presidente em Filadélfia que contavam a história de nove pessoas escravizadas por George e Martha Washington. Uma ordem judicial federal determinou a reinstalação dos painéis, mas, segundo a imprensa norte-americana, a administração Trump ainda não cumpriu integralmente a decisão. O gesto insere-se num plano mais amplo de celebração oficial que inclui um festival “Freedom 250” entretanto convertido em comício do presidente, um combate de artes marciais mistas no jardim da Casa Branca e uma forte centralidade da figura de Donald Trump, que se autodescreveu como “a atração número um do mundo”.
Sondagens recentes dão a dimensão do mal-estar que acompanha o marco histórico. O instituto Gallup regista que apenas 33% dos adultos se dizem “extremamente orgulhosos” de ser americanos, o valor mais baixo desde que a pergunta foi formulada pela primeira vez em 2001. Maiorias expressivas consideram que os melhores anos do país já passaram (58% na NBC News, 60% no Pew Research Center) e 72% afirmam, num estudo da Associated Press-NORC, que os EUA estão no rumo errado. A apreensão atravessa linhas partidárias, ainda que democratas e jovens se mostrem particularmente pessimistas. No plano económico, a coincidência entre a fortuna do primeiro trilionário do mundo, Elon Musk, e a perda de acesso a vales de alimentação por mais de 4,7 milhões de pessoas após o pacote fiscal de Trump cristaliza, para analistas progressistas, a perceção de uma economia em “K” que concentra ganhos no topo.
A disputa sobre o significado da fundação é o outro eixo da efeméride. Setores conservadores nos EUA sublinham a centralidade da fé e da liberdade religiosa na arquitetura constitucional, citando as quatro referências a Deus na Declaração de Independência e a ausência de uma religião de Estado como prova de que os fundadores não quiseram excluir a religião da vida pública. Já vozes progressistas reivindicam a memória de figuras como Gouverneur Morris e Benjamin Rush, que se opuseram à escravatura na Convenção Constitucional, e recordam que a estátua da Liberdade, cuja mão foi exibida na Exposição Universal de Filadélfia de 1876, simbolizava uma promessa de emancipação ainda por cumprir. Observadores europeus, como o diário quebequense Le Devoir, notam que o debate se alarga ao direito de voto, com a maioria conservadora do Supremo Tribunal a reduzir o alcance da Lei dos Direitos de Voto e a administração a promover legislação que, segundo organizações cívicas, afastará eleitores das urnas.
A efeméride ocorre num momento em que a própria continuidade do projeto americano é posta em causa. O documentarista Ken Burns perguntou, em entrevista à NBC, se “haverá outros 250 anos, ou apenas mais dez”. A historiadora Doris Kearns Goodwin recordou que a Guerra Civil, a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial foram atravessadas com uma angústia semelhante, mas sem que os contemporâneos conhecessem o desfecho. O secretário do Smithsonian, Lonnie Bunch, apontou o microfone dos discursos radiofónicos de Roosevelt como objeto-símbolo da esperança. Para lá das fronteiras americanas, o debate ecoa em países lusófonos que também revisitam os seus legados coloniais e independentistas, de Brasília a Lisboa e Luanda. O tribunal federal de Filadélfia mantém a exigência de reposição dos painéis, enquanto a Casa Branca prossegue com uma agenda comemorativa que, na leitura de analistas internacionais, transforma o aniversário da república num teste à resiliência das suas instituições.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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No 250º aniversário da independência, os americanos expressam uma ansiedade recorde, com a maioria acreditando que o futuro é pior que o passado. O debate interno opõe os que denunciam a traição dos ideais fundadores aos que defendem a promessa americana, enquanto a desigualdade econômica e as ameaças às liberdades alimentam um profundo mal-estar.
O 250º aniversário torna-se ocasião para uma reflexão histórica sobre as raízes seculares da república americana: os pais fundadores eram deístas que excluíram deliberadamente a religião dos documentos fundadores. A análise sublinha a ironia de uma nação que hoje invoca a fé enquanto as suas origens mergulham no Iluminismo.
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