
Entre o riso e a crise: como 'O Convite' transforma um jantar em espelho de relações
Olivia Wilde e Penélope Cruz protagonizam comédia que nasceu de um processo catártico e conquistou Sundance, enquanto os looks da estreia ecoam a dualidade do filme.
Olivia Wilde caminhava a passos largos pelo Central Park, num dia de maio escaldante, falando de forma descontraída sobre terapia de casal, casamentos abertos e o impacto dos filhos na libido. A realizadora e atriz tirara uma fotografia junto à estátua de Alice no País das Maravilhas para o filho, que interpretara o Chapeleiro Louco numa peça da escola, e seguia agora pelo reservatório, alheia aos olhares curiosos. Foi nesse passeio que confessou ter vivido, durante as filmagens de “O Convite” (The Invite), uma catarse inesperada: “Lembro-me de estar no meio de uma cena e perceber que estava a libertar algo que estava incrustado em mim e que eu nem sabia que ainda estava lá”, revelou à revista Time. A dor de um coração partido, disse, foi arrancada do peito e posta sobre a mesa, num processo que só foi possível graças à segurança criada pelo elenco.
O filme, que estreia a 9 de julho no Brasil com sessões antecipadas a partir de 27 de junho, adapta a peça e o filme espanhol “Sentimental”, de Cesc Gay. A trama confina-se a um apartamento em São Francisco, onde o casal em crise Angela (Wilde) e Joe (Seth Rogen) recebe para jantar os vizinhos do andar de cima, Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton). O que começa como uma tentativa de confraternização transforma-se num campo minado quando os anfitriões descobrem que o convite dos vizinhos inclui uma proposta de sexo a quatro. A noite avança entre confissões, ressentimentos e tentativas frustradas de sedução, expondo as fraturas de um casamento desgastado e a fragilidade das personas que se constroem para o outro.
A gestação do projeto foi tão invulgar quanto o resultado. Wilde, depois de ler o argumento de Rashida Jones e Will McCormack, reuniu o elenco numa sala onde outrora se filmou o piloto de “I Love Lucy” e, durante semanas, todos trabalharam o texto em conjunto, cosendo às personagens discussões, embaraços e confissões das suas próprias relações. A psicoterapeuta Esther Perel foi chamada para aconselhar Cruz na composição da sua personagem, uma sexóloga, e para afinar as dinâmicas conjugais da história. Filmado em apenas 21 dias, de forma cronológica, o longa-metragem chegou ao Festival de Sundance em janeiro de 2026 e desencadeou uma guerra de licitações de 72 horas. A distribuidora A24 acabou por pagar mais de 12 milhões de dólares pelos direitos nos EUA, superando concorrentes como a Neon. No Brasil, a receção antecipada ecoou o entusiasmo: agregadores de críticas apontavam 94% de aprovação, e a imprensa local descrevia o filme como “divertido, caótico e embriagante, como um bom jantar deve ser”.
A dualidade entre o riso e o desconforto, que marca a narrativa, encontrou um espelho inesperado na passadeira vermelha da antestreia em Los Angeles. Penélope Cruz, fiel à casa Chanel, surgiu com um vestido azul-celeste de alta-costura, de alças finas e costas nuas, bordado com lantejoulas e pedrarias que caíam como pétalas — uma imagem de leveza romântica que contrastava com a escolha de Olivia Wilde. A realizadora optou por um modelo preto de tafetá da Saint Laurent, assinado por Anthony Vaccarello, com mangas vitorianas volumosas, decote profundo em V e um recorte geométrico no abdómen, numa silhueta que equilibrava poder e teatralidade. As duas atrizes não competiam em cor ou ornamento, mas em filosofias de estilo: a suavidade clássica de Cruz e a escultura contemporânea de Wilde já contavam, em trajes, a história de um filme que se equilibra entre a fragilidade e a provocação.
Enquanto o público lusófono se prepara para receber a comédia, o que fica da experiência é a sensação de um jantar que, mesmo terminado, continua a reverberar. A atriz espanhola, que aos 52 anos diz não trocar a segurança que sente hoje pelas inseguranças dos 20, e a realizadora americana, que transformou o próprio sofrimento em matéria criativa, entregam um retrato de relações onde o riso e a crise partilham a mesma mesa. Na última imagem da antestreia, o azul-celeste de Cruz e o negro escultórico de Wilde permanecem como duas faces de uma mesma moeda: a elegância que acolhe e a ousadia que desconcerta, tal como o filme que as uniu.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A imprensa latino-americana destaca as reflexões de Penélope Cruz sobre a idade e as inseguranças passadas, enquadrando o filme como uma comédia mordaz e caótica sobre um jantar entre um casal em crise e seus vizinhos liberais. A ênfase está no poder das estrelas e na mistura de humor e catarse íntima.
A imprensa atlântica foca no final transformador e na catarse pessoal de Olivia Wilde, descrevendo o filme como uma inteligente comédia de relacionamento que descasca as camadas de dois casais muito diferentes. A cobertura sublinha a jornada emocional da realizadora e o acordo de distribuição com a A24.
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