
Expansão orbital em massa ameaça astronomia, enquanto ciência revela planetas resilientes e NASA projeta base lunar
Estudo do ESO quantifica o impacto de megaconstelações de satélites no céu noturno, investigação escocesa deteta um planeta que sobreviveu à morte da sua estrela e a agência norte-americana avança com contratos para uma presença permanente na Lua.
Um estudo liderado pelo Observatório Europeu do Sul (ESO) e publicado na revista Astronomy & Astrophysics calcula, pela primeira vez, o efeito de megaconstelações de satélites no brilho de fundo do céu e conclui que ultrapassar os 100 mil engenhos em órbita baixa teria “consequências devastadoras” para a astronomia. Atualmente existem cerca de 14 mil satélites ativos, mas os planos da SpaceX para um milhão de unidades adicionais, os projetos chineses CTC-1 e CTC-2 e os espelhos refletores da start-up Reflect Orbital elevariam o total para mais de 1,7 milhões. A investigação, que serviu de base a um comentário conjunto do ESO, da Royal Astronomical Society e da União Astronómica Internacional submetido à Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos EUA, defende que os satélites devem ser suficientemente ténues para permanecerem invisíveis a olho nu, mesmo sob céus escuros.
A perturbação ocorre sobretudo ao amanhecer e ao anoitecer, quando a luz solar ainda incide nos objetos em órbita. As passagens deixam rastos luminosos que saturam detetores, geram imagens-fantasma e podem inutilizar exposições de telescópios de grande campo, como o do Observatório Vera C. Rubin. Olivier Hainaut, astrónomo do ESO e autor principal, nota que os satélites-espelho da Reflect Orbital, mesmo fora do feixe refletido, brilhariam como Vénus, transformando o céu puro do Atacama — onde se situam os telescópios do ESO — num panorama semelhante ao da periferia de uma cidade. Apesar de uma colaboração “razoavelmente boa” com fabricantes como a SpaceX, o investigador alerta que as propostas atuais ultrapassam o limite do suportável.
Enquanto o debate regulatório se concentra em Washington, um trabalho independente publicado na Nature revela que alguns planetas gasosos podem sobreviver à morte da sua estrela e migrar para órbitas muito mais próximas milénios depois. Investigadores da Universidade de St Andrews, na Escócia, usaram o Telescópio Espacial James Webb para analisar a atmosfera de WD 1856 b, um planeta do tamanho de Júpiter que orbita uma anã branca a 80 anos-luz. A espetroscopia de transmissão detetou metano e aerossóis, mas o dado mais surpreendente foi a temperatura atmosférica: entre 117 e 139 °C, mais do dobro do esperado para a escassa energia recebida da estrela. A equipa interpreta o calor como residual de um aquecimento ocorrido há milhares de milhões de anos, reforçando a hipótese de que o planeta migrou tardiamente devido a perturbações gravitacionais de estrelas companheiras, em vez de ter sido engolido e regurgitado pela gigante vermelha.
Em paralelo, a NASA anunciou contratos de 590 milhões de dólares com a Astrobotic, a Firefly e a Intuitive Machines para quatro missões de carga à superfície lunar, no âmbito do programa Moon Base. A fase inicial, orçada em 10 mil milhões de dólares até 2028, prevê a instalação de instrumentos científicos e o início da construção de um habitat pressurizado na década de 2030, com um custo total estimado de 30 mil milhões. O polo sul da Lua é o alvo preferencial devido às reservas de gelo de água. Contudo, a explosão de um foguetão New Glenn, da Blue Origin, em maio, danificou infraestruturas de lançamento e pode atrasar a missão do módulo robótico Blue Moon. A próxima etapa regulatória a observar é a decisão da FCC sobre os pedidos da SpaceX e da Reflect Orbital, que definirá o quadro para a convivência entre a economia orbital e a observação do cosmos.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Um novo estudo alerta que a corrida comercial para encher a órbita baixa da Terra com até 1,7 milhão de satélites pode ter consequências devastadoras para a astronomia. O céu noturno ficaria mais brilhante e os telescópios perderiam grandes porções de suas imagens devido aos rastros dos satélites. Os pesquisadores pedem um limite global de 100 mil satélites para preservar nossa capacidade de estudar o universo.
A NASA está se preparando para construir uma base permanente na Lua, com um orçamento de 30 bilhões de dólares, enquanto os Estados Unidos buscam manter sua liderança no espaço em meio à acirrada competição com a China. Contratos iniciais foram concedidos a empresas privadas para a entrega de instrumentos científicos e tecnologia. O posto avançado lunar é apresentado como um ativo estratégico na nova corrida espacial.
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