
Dólar global forte testa emergentes enquanto inflação recua no Brasil e persiste na zona do euro
A valorização de 3% do índice DXY em junho pressiona moedas como o real e o peso argentino, num momento em que a desinflação brasileira surpreende e as expectativas europeias seguem elevadas.
O fortalecimento do dólar no mercado global — o Dollar Index (DXY) subiu 3% em junho — impôs uma correção cambial generalizada sobre as economias emergentes. O real brasileiro cedeu 6% no período, enquanto o peso argentino registrou a maior alta mensal desde a corrida pré-eleitoral do ano passado, com avanço de 6,5% em 30 dias. Em Buenos Aires, analistas observam que o movimento, embora alinhado à tendência externa, expõe os limites da arquitetura monetária local: o Banco Central argentino reduziu a intervenção no mercado de futuros e passou a vender títulos atrelados ao dólar para suavizar a trajetória da cotação, sem conter a depreciação nominal.
A pressão cambial na Argentina ocorre num quadro de desinflação ainda frágil. Após dez meses de aceleração, o índice de preços desacelerou por dois meses consecutivos, e consultorias projetam inflação abaixo de 2% ao mês no segundo semestre. O risco, apontam economistas locais, é que a alta do dólar contamine as expectativas justamente quando a atividade dá sinais de estagnação e a liquidação de divisas do agronegócio perde força — as compras diárias do BCRA caíram de US$ 140 milhões para menos de US$ 80 milhões. Ainda assim, a combinação de superávit fiscal, taxas de juro reais negativas e câmbio mais competitivo é vista como um vetor de recuperação, desde que o repasse aos preços permaneça contido.
No Brasil, o cenário é distinto. A prévia da inflação oficial de junho (IPCA-15) veio abaixo do esperado, a 0,41%, puxada pela queda nos combustíveis e pela descompressão em indústria e serviços. Apesar do alívio pontual, a inflação acumulada em 12 meses acelerou para 4,8%, e o Banco Central projeta 5,2% para 2026, com recuo gradual até 3,2% no início de 2028. Em São Paulo, a leitura é de que os choques externos — petróleo e fenômeno El Niño — ainda representam ameaças, mas a trajetória de curto prazo abre espaço para novos cortes na Selic, aliviando o endividamento das famílias.
Na zona do euro, a dinâmica é oposta. A inflação percebida pelos consumidores manteve-se em 4,0% nos últimos 12 meses, o patamar mais alto desde julho de 2024, enquanto as expectativas para o próximo ano recuaram de 4,0% para 3,5% em maio. O BCE elevou os juros em junho e, segundo a presidente Christine Lagarde, adotará uma abordagem “dependente dos dados”, sem descartar novos aumentos. Em Frankfurt, a preocupação é que a inflação subjacente, ainda em 1,7% na Itália e com serviços pressionados, demore a convergir para a meta de 2%, num contexto em que o fim do conflito no Oriente Médio pode não ser suficiente para normalizar os preços de energia.
O próximo marco factual será a divulgação do IPCA-15 completo de junho no Brasil e a ata da reunião do BCE, que podem calibrar as expectativas para a política monetária nas duas regiões. Na Argentina, o foco recai sobre a capacidade do BCRA de administrar a volatilidade cambial sem reacender a inflação, enquanto o mercado monitora a fijação de preço do título TZV26 como termômetro da pressão de curto prazo.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O fortalecimento global do dólar testa a arquitetura cambial argentina, enquanto o Brasil vê uma desaceleração mensal da inflação, mas uma tendência anual ainda em aceleração. Analistas alertam que a dinâmica é incomum e a desinflação permanece frágil, com custos ainda elevados.
A inflação italiana acelera para 3,2% em maio, impulsionada pelos preços de energia e serviços de transporte, enquanto os bens alimentares desaceleram. A inflação subjacente sobe para 1,7%, sinalizando cautela generalizada apesar do alívio no cabaz de compras.
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