
IA é mais usada como apoio emocional do que para produtividade, enquanto empresas recuam
Análise da Harvard Business Review revela que a principal utilização da inteligência artificial generativa já é a terapia e o suporte emocional, superando o uso profissional, num momento em que grandes grupos revêem as suas estratégias de automação.
O uso da inteligência artificial generativa para obter apoio emocional e psicológico duplicou em pouco tempo e tornou-se a principal aplicação da tecnologia, à frente da produtividade e do trabalho, segundo uma análise publicada pela Harvard Business Review em junho. A categoria “terapia e suporte emocional” passou de 5% para 11% do total de interações, um dado que altera a narrativa dominante de que a IA seria, acima de tudo, uma ferramenta de eficiência empresarial. Em paralelo, o entretenimento e as conversas sem objetivo prático surgem como o terceiro uso mais frequente, sinalizando que os utilizadores procuram nos chatbots uma companhia disponível 24 horas, sem julgamentos e com respostas articuladas.
Esta migração para o conforto digital é explicada, em parte, pelo declínio das redes de apoio tradicionais. Dados do Brookings Institution mostram que o número de adultos nos Estados Unidos com dez ou mais amigos próximos continua a diminuir, enquanto plataformas como o Character.ai registam utilizações médias superiores a uma hora e meia por dia. Observadores na Europa e na Indonésia notam que a tendência é global: em Itália, a revista L’Espresso descreve o fenómeno como “o divã do chatbot”, e na Indonésia, o jornal Republika relata que muitos jovens preferem desabafar com o ChatGPT a falar com familiares. Contudo, especialistas alertam para o risco de “thinkslop”, a papa mental que surge quando se delega à máquina não só a resposta, mas o próprio ato de pensar, enfraquecendo a capacidade de lidar com a complexidade das relações humanas.
No mercado de trabalho, o impacto da IA revela-se mais ambíguo do que o previsto. Apesar das projeções do Fórum Económico Mundial de que 39% das competências essenciais mudarão até 2030, os dados agregados de emprego e salários nos Estados Unidos ainda não mostram um efeito significativo da automação, como nota a Forbes. Ainda assim, recém-licenciados em tecnologia por universidades de prestígio enfrentam dificuldades inéditas: a taxa de desemprego entre diplomados de 22 a 27 anos subiu de 4% em 2022 para 5,6% em março de 2026, segundo o banco central de Nova Iorque. Ao mesmo tempo, empresas como a Ford, a Klarna e a McDonald’s recuaram em projetos de IA após resultados insatisfatórios. A Ford voltou a contratar 350 engenheiros seniores depois de verificar que os sistemas de inteligência artificial não atingiam a qualidade esperada no design de veículos, enquanto a Klarna reduziu os cortes de pessoal no atendimento ao cliente por falta de empatia dos chatbots.
A transformação atinge também profissões que exigem adaptação urgente. Na Indonésia, uma análise do Viva.co.id identifica designers gráficos, programadores, operadores de atendimento e analistas de dados como áreas em que a IA não elimina o emprego, mas obriga a uma reinvenção das funções, com maior ênfase na estratégia criativa, na supervisão técnica e na resolução de problemas complexos. Bill Gates, em várias intervenções, apontou que programadores, biólogos, especialistas em energia e atletas profissionais estarão entre os mais difíceis de substituir, não apenas pela competência técnica, mas porque envolvem julgamento humano, emoção e uma ligação social que a máquina não replica. No ensino superior, instituições como a Northeastern University, nos EUA, apostam em currículos que alternam períodos de estudo com trabalho remunerado em contexto real, preparando os alunos para colaborar com a IA em vez de competir com ela.
O próximo marco a observar será a evolução dos indicadores de produtividade e a capacidade das empresas de medir os ganhos de qualidade que a IA pode trazer, muitas vezes invisíveis nas estatísticas oficiais. Enquanto isso, a engenharia de ciclos contínuos (loop engineering) começa a ser aplicada a chatbots de saúde mental, com o objetivo de transformar interações pontuais em relações de aconselhamento prolongado, um desenvolvimento que exigirá atenção redobrada aos riscos de dependência e à ausência de responsabilidade clínica. A recomendação que atravessa todas as geografias é a mesma: tratar a IA como instrumento de apoio, não como substituto do pensamento crítico e dos vínculos humanos.
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