
Museus e arquivos revelam novas camadas da história, de fósseis antárticos a coleções coloniais
Da reidentificação de um dinossauro guardado há 40 anos à colaboração com povos indígenas, instituições na Europa, Austrália e EUA transformam acervos em espaços de reinterpretação do passado.
Um fóssil recolhido na Antártida em 1985 e mantido durante quase quatro décadas numa gaveta do British Antarctic Survey, em Cambridge, foi formalmente identificado como a primeira vértebra caudal de um titanossauro encontrada no continente gelado. A descoberta, publicada na revista Acta Palaeontologica Polonica, altera o conhecimento sobre a presença de dinossauros na região e ilustra um movimento mais amplo: o reexame de coleções museológicas e arquivísticas está a produzir novas leituras sobre o passado natural e colonial.
O espécime, com cerca de 10 centímetros de largura, tinha sido classificado pelo geólogo Mike Thomson como um resto de grande réptil marinho. Só agora o paleontólogo Mark Evans, ao rever o acervo, suspeitou da origem dinosauriana e pediu a análise de Paul Barrett, do Natural History Museum de Londres. A morfologia da vértebra confirmou tratar-se de um titanossauro herbívoro de aproximadamente sete metros, provavelmente um indivíduo jovem que viveu há 82 milhões de anos, quando a Antártida era coberta por florestas. Na perspetiva de investigadores europeus, o achado demonstra como coleções históricas continuam a fornecer dados inéditos sobre ecossistemas extintos, mesmo sem novas expedições de campo.
Paralelamente, o Etnografiska museet de Estocolmo recebeu três mulheres do povo Jirrbal, do nordeste da Austrália, para examinar objetos recolhidos pelo zoólogo sueco Eric Mjöberg na década de 1910. A visita, parte da preparação de uma exposição sobre a herança colonial sueca com abertura prevista para dezembro, permitiu às representantes indígenas reconhecer peças como uma manta de casca de figueira e uma tocha de floresta tropical. Observadores na Suécia notam que o contacto direto com os objetos gerou reações de comoção e gratidão, ao mesmo tempo que reavivou a memória de um artesanato e de uma língua — o jirrbal — em risco de desaparecimento. O arquivo pessoal de Mjöberg, recentemente transferido da Califórnia para o museu, está a ser decifrado pela arqueóloga Åsa Ferrier, revelando o percurso sistemático do cientista e o contexto das recolhas.
Na Austrália, o National Museum of Australia, em Camberra, inaugurou uma exposição com mais de 200 objetos da coleção nacional do património antártico, muitos deles nunca antes mostrados. A mostra inclui veículos de neve, trenós, cães taxidermizados e diários de exploradores, e estará patente até 11 de outubro. Em Washington, o novo National Geographic Museum of Exploration, aberto em junho, ocupa quase dez mil metros quadrados e aposta em experiências imersivas para aproximar o público de expedições científicas contemporâneas. A convergência destas iniciativas, em diferentes continentes, sinaliza que museus e arquivos estão a deixar de ser meros depositários de objetos para se tornarem plataformas ativas de reinterpretação, onde fósseis esquecidos, artefactos coloniais e relatos de exploração ganham novos significados.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Os museus etnográficos europeus estão a enfrentar o seu passado colonial com uma mistura de desconforto e pragmatismo. Uma nova exposição em Estocolmo, desenvolvida com representantes indígenas australianos, procura lançar luz sobre coleções controversas acumuladas durante a era colonial. A iniciativa revela como é complexo e doloroso o processo de descolonização das instituições culturais.
A Antártida é celebrada como um património de exploração e resistência humana, com uma das maiores coleções alguma vez exibidas na Austrália. A exposição destaca mais de um século de empreendimentos antárticos, apresentando centenas de artefactos ao público pela primeira vez. A ênfase está no esforço coletivo e no legado científico, sem qualquer referência a controvérsias coloniais.
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