
Calor, K-pop e clareza: a Milan Fashion Week entre o Mediterrâneo e a precisão
Com leques como acessório de sobrevivência e fãs de ídolos coreanos a desafiar o asfalto, as coleções masculinas oscilaram entre a evasão poética de Armani e o rigor despojado de Prada.
O calor torrencial que se abateu sobre Milão transformou os leques no acessório mais cobiçado da semana de moda masculina. Nas entradas dos desfiles, garrafas de água gelada substituíram as taças de champanhe, e a cidade esvaziou-se de editores e compradores, que buscaram refúgio no litoral ou nas montanhas. A exceção foram os adolescentes que, indiferentes à canícula, formaram barricadas sonoras à porta da Prada e da Tod’s para vislumbrar os ídolos do K-pop ENHYPEN, Jaehyun e Han — um magnetismo que, segundo observadores locais, redefiniu a geografia humana do evento.
Foi nesse cenário de fuga coletiva que Giorgio Armani encerrou o calendário com um desfile no pátio do Palazzo Orsini. Assentos de palha e candeeiros em forma de pequenos guarda-sóis evocavam um Mediterrâneo de pedra branca, azul cobalto e ouro baço. Leo Dell’Orco, responsável pela linha masculina, e Silvana Armani, que pela primeira vez apresentou a cruise feminina na mesma passerelle, levaram o público a um aplauso demorado. “Ele está sempre presente”, disseram sobre o fundador, admitindo sentir falta dos seus “cazziatone”, as reprimendas afetuosas que afinavam cada detalhe. A dupla desmentiu os rumores que apontavam Dario Vitale para a Emporio Armani, reafirmando a transição sob o signo da continuidade.
No extremo oposto do espectro criativo, a Prada levou os convidados à Torre da Fondazione Prada, onde uma passerelle labiríntica e cadeiras transparentes iluminadas por baixo criavam uma atmosfera de experimento clínico. Lá fora, a histeria dos fãs do grupo ENHYPEN contrastava com o silêncio quase frio do interior. Miuccia Prada e Raf Simons propuseram uma “clareza” que se traduziu em silhuetas esguias, jeans e camisetas despojados de adornos não funcionais, e pequenas bolsas suspensas nos passadores do cinto. Na leitura de analistas asiáticos, essa precisão encontra ressonância em mercados onde o corpo magro e o gosto pelo vestuário “arrumado” ainda prevalecem sobre a era oversized — uma correção mais do que uma nostalgia.
Enquanto as passerelles ditavam o imediato, outras marcas ensaiavam respostas próprias. A MooRer apresentou uma coleção de luxo discreto ancorada em linho, seda e raríssimo algodão Sea Island, com uma paleta que ia do azul celeste ao verde sálvia e detalhes metálicos cor de chocolate. Paralelamente, plataformas internacionais de tendências apontavam a ascensão dos vestidos camisa de noite, dos tons água-marinha e das calças de cetim com estampas florais, num regresso a uma feminilidade romântica que ecoava, em código paralelo, a evasão mediterrânica de Armani. Já o anúncio do projeto PradaGalleria — que a partir de setembro unificará lojas, pastelaria e fundação na Galleria Vittorio Emanuele II, com um túnel subterrâneo e a exposição Pradasphere — sinalizou uma aposta na experiência imersiva da marca, para além do efémero da passerelle.
A semana, amputada das presenças de Gucci e Fendi, deixou ainda assim uma mensagem de “autenticidade e verdade”, como notaram observadores em Milão. No pátio de Armani, o aplauso coletivo pareceu selar uma transferência geracional feita de leveza e respeito. Na Torre da Prada, as bolsas vazias que pendiam dos cintos permaneciam como uma interrogação silenciosa sobre o equilíbrio entre forma e função — a imagem suspensa de uma moda que, entre o calor e a clareza, procura o seu próximo centro de gravidade.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A mídia russa ignora os desfiles de Milão, oferecendo conselhos práticos de moda de verão: coques baixos lisos, cascatas texturizadas, tons loiro manteiga e calças em vez de jeans. O foco está nas tendências acessíveis para a consumidora local.
A imprensa europeia continental relata uma Milan Fashion Week suspensa pelo calor recorde, onde os leques coreanos substituíram as taças de champanhe. O desfile mediterrâneo de Armani e a clareza curatorial da Prada se destacaram, enquanto um protesto antiluxo acrescentou uma nota de ceticismo.
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