
O biopic que naufragou: Madonna e o desacerto com a Universal
Após quatro anos de desenvolvimento, o filme sobre a vida da cantora foi abandonado por divergências orçamentais; agora ela transforma o impasse num novo álbum e num videoclipe onde a atriz que a interpretaria surge como um fantasma do projeto.
No videoclipe de “Bring Your Love”, que Madonna lançou com Sabrina Carpenter, há uma aparição fugaz: Julia Garner, de peruca loira e ombreiras oitentistas, dança numa discoteca de néon. É a mesma atriz que, em 2022, foi escolhida para encarnar a rainha do pop num biopic que a Universal Pictures acabou por engavetar. A presença de Garner no vídeo funciona como uma assombração delicada — o rosto do filme que nunca existiu, devolvido ao ecrã por uma artista que, aos 67 anos, continua a reescrever a própria narrativa.
A história do projeto malogrado veio a público numa entrevista à revista Interview. Madonna contou que passou dois anos a escrever o argumento e outros dois nos estúdios da Universal, a discutir orçamentos e a escolher elenco. “Tive uma vida extraordinária, uma vida imensa, por isso precisava de um orçamento grande”, justificou. A cantora propôs filmar na Sérvia para reduzir custos, mas o estúdio, segundo o seu relato, duvidou que ela aguentasse mais de quatro dias no país. “Vocês leram o guião?”, respondeu ela. “A minha vida inteira foi uma luta pela sobrevivência. Não vou para lá de férias.” Na imprensa europeia, o episódio foi lido como um choque entre a visão autoral de uma estrela e a lógica financeira de um grande estúdio. O Le Figaro sublinhou a “zanga” entre as partes; o espanhol Todo Noticias recuperou a frase que Madonna deixou no ar: “Talvez simplesmente não acreditassem em mim”.
Quando o projeto da Universal naufragou, a Netflix contactou-a para transformar a história numa série. Mas o argumento que ela própria escrevera estava preso ao estúdio anterior: para o usar, teria de o comprar “a um preço exorbitante”. Madonna passou meses à procura de um showrunner adequado, sem sucesso. “Foram mais oito ou nove meses”, disse. “Ainda bem que tenho outro trabalho, porque preciso de criar, de fazer aquilo para o que nasci.” No Brasil, o CNN Brasil destacou a resiliência da cantora, que descreveu o período como um “limbo”. Em Portugal, observadores notaram a ironia de uma artista não conseguir libertar um texto autobiográfico que ela mesma redigiu — um impasse que ecoa debates mais amplos sobre propriedade intelectual na indústria do entretenimento.
O fracasso do biopic empurrou Madonna de volta à música. O novo álbum, “Confessions on a Dance Floor: Part II”, nasceu de uma chamada a Stuart Price, produtor do disco homónimo de 2005. “Achei que o mundo estava num momento difícil e as pessoas precisavam de dançar”, explicou. A cantora atravessava lutos familiares — um irmão doente, a morte da madrasta — e transformou esses traumas em faixas dançantes. O videoclipe com Sabrina Carpenter, realizado pelo coletivo Torso, devolve-a à pista de dança, cenário que a consagrou há duas décadas. A aparição de Julia Garner, com um look oitentista, é mais do que um cameo: é o negativo do filme que não foi, uma imagem que persiste como possibilidade suspensa.
O biopic de Madonna não é o primeiro a soçobrar na era de ouro das cinebiografias musicais, mas o seu colapso revela a tensão entre o controlo criativo que uma estrela exige e a escala industrial que um estúdio impõe. Enquanto a Netflix continua a desenvolver, com Shawn Levy, uma série que recomeçará do zero, a cantora já fez da pista de dança o seu ecrã alternativo. No final do vídeo, a câmara abandona Garner e regressa a Madonna, que dança como se o filme cancelado fosse apenas mais um capítulo da vida extraordinária que ela insiste em contar.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A rainha do pop transformou um pedido da filha para escreverem uma canção que curasse a relação num novo álbum colaborativo. O projeto nasceu de uma necessidade familiar e abriu um caminho artístico mais pessoal e reconciliador.
A cinebiografia fracassou após um desentendimento com o estúdio sobre restrições orçamentárias. A cantora descreveu um estado de limbo criativo, com o filme engavetado apesar de anos de roteiro e escalação. O caso expõe a dificuldade de levar uma vida extraordinária às telas sob controle corporativo.
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