
Anúncio de novo fecho do Estreito de Ormuz pelo Irão contrasta com tráfego marítimo residual e negociações em curso
Apesar da declaração de encerramento por Teerão, navios continuam a cruzar a via estratégica, enquanto Washington e aliados tentam estabilizar o corredor petrolífero global.
O anúncio, no sábado, de que o Irão voltara a fechar o Estreito de Ormuz em retaliação por ataques israelitas no Líbano provocou uma queda imediata nas travessias registadas por plataformas comerciais. No domingo, apenas cinco navios petroleiros foram detetados, contra 26 no dia anterior, segundo a Kpler; a Windward reportou 12 travessias totais. Contudo, o Comando Central dos EUA (CENTCOM) assegurou que a passagem permanecia “intacta”, contabilizando 55 navios mercantes no sábado. A discrepância, explicam analistas no Canadá e em Singapura, deve-se em parte ao elevado número de embarcações com transponders desligados — os chamados “dark vessels” — que navegam junto à costa omanita para escapar à monitorização iraniana.
A manobra insere-se numa estratégia mais ampla de Teerão para instrumentalizar o estreito como alavanca de pressão económica. A Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico (PGSA) divulgou regras que exigem que os navios solicitem permissão, revelem propriedade e carga, e ameaçam com penalizações e futuras taxas de seguro. Especialistas em direito internacional britânicos sublinham que tais exigências violam a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, que garante a passagem em trânsito mesmo em conflito. Ainda assim, a PGSA procura “normalizar” a coordenação com os armadores, num contexto em que o Irão já destruiu mais de 40 navios lança-minas, segundo fonte da Casa Branca, e em que um relatório do J.P. Morgan estima que Teerão poderia arrecadar entre 70 e 90 mil milhões de dólares anuais apenas com portagens.
Apesar das tensões, o tráfego não cessou. Na segunda-feira, quatro navios-tanque de GNL controlados pelo Qatar entraram no estreito pela rota iraniana, pela primeira vez desde o início da guerra, a 28 de fevereiro. Três superpetroleiros sob sanções, carregados com crude iraniano, saíam do Golfo Pérsico operando à vista — uma mudança de postura que, segundo a empresa israelita Windward, reflete a confiança gerada pelo memorando de entendimento assinado entre Washington e Teerão a 17 de junho. Paralelamente, a QatarEnergy e a Abu Dhabi National Oil Company retomaram lentamente as exportações, com dois navios de GNL dos Emirados a descarregar na Índia após viagens “às escuras”.
Para os mercados, o efeito imediato foi contido: o barril de Brent recuou ligeiramente na manhã de segunda-feira na Ásia, situando-se abaixo dos 80 dólares, enquanto as bolsas de Tóquio, Seul e Taipé registaram ganhos. Observadores em Brasília e Lisboa acompanham a volatilidade com cautela, dado o peso das importações de petróleo nas economias lusófonas. O próximo marco factual são as conversações em curso na Suíça entre negociadores norte-americanos e iranianos, onde já foi acordado um mecanismo de comunicação para evitar incidentes e garantir a passagem segura de navios comerciais, segundo mediadores do Qatar e do Paquistão. A consolidação desse mecanismo — ou o seu fracasso — ditará o ritmo da retoma do corredor por onde transita um quinto do petróleo e do GNL mundiais.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O Irã transforma o Estreito de Ormuz em ferramenta de pressão estratégica após ataques israelenses no Líbano. O anúncio de fechamento derrubou o tráfego marítimo, comprovando a capacidade de Teerã de sufocar as rotas energéticas globais. Um especialista alerta que a República Islâmica pretende manter essa pressão como instrumento de retaliação.
Apesar da desaceleração geral do tráfego no Estreito de Ormuz, quatro navios-tanque de GNL do Catar entraram na hidrovia pela rota iraniana. É a primeira vez desde o início da guerra que embarcações catarianas usam esse corredor, sinalizando a determinação de Doha em manter as exportações de GNL. A QatarEnergy não comentou, mas os dados de rastreamento confirmaram o trânsito.
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