
Lagarde afasta resposta contundente à inflação, mas guerra e ajuda em África preocupam
Presidente do BCE vê choque inflacionário contido, enquanto FMI alerta para queda da assistência oficial ao desenvolvimento na África Subsaariana.
A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, afirmou nesta segunda-feira que a zona euro não enfrenta, por ora, pressões inflacionárias de segunda ordem que justifiquem uma resposta monetária mais enérgica. Apesar de a inflação ter superado os 3% e de o BCE ter elevado as taxas de juro pela primeira vez desde 2023, Lagarde considera que o choque decorrente da guerra no Médio Oriente é “demasiado grande para ser ignorado”, mas ainda não desancorou as expectativas de longo prazo. A instituição mantém-se dependente dos dados, sem se comprometer com uma trajetória pré-definida para as taxas.
O conflito travou o ímpeto que a economia da área do euro exibia no início de 2026, com um crescimento de 0,3% no primeiro trimestre. A atividade nos serviços já dá sinais de abrandamento, enquanto a indústria transformadora mostra alguma resiliência, amparada pela acumulação de existências e pelo aumento da despesa em defesa. As projeções do BCE apontam para uma expansão do PIB real de 0,8% este ano, acelerando para 1,5% em 2028, mas a confiança foi afetada e os custos energéticos mais elevados comprimem os rendimentos reais. Observadores em Frankfurt notam que a transmissão das tensões energéticas à economia mais ampla poderá ser mais limitada do que no episódio de 2022-2023, embora persistam riscos de alta para a inflação e de queda para o crescimento.
Em Washington, o Fundo Monetário Internacional lançou um alerta paralelo: a ajuda oficial ao desenvolvimento (ODA) destinada à África Subsaariana caiu cerca de 26% em 2025, para aproximadamente 29,2 mil milhões de dólares. O diretor do Departamento de África do FMI, Zeine Zeidane, descreveu um “momento difícil” para a região, agravado pela disrupção nos mercados de energia e fertilizantes. Países como Etiópia, Gâmbia, Burquina Faso e Maláui já solicitaram assistência técnica ou financeira adicional. Na perspetiva de Brasília e de Lisboa, a contração da ODA acende um sinal de alarme para as economias lusófonas africanas, como São Tomé e Príncipe — que acaba de concluir a terceira revisão do seu programa com o FMI —, e para os Estados frágeis onde a ajuda representa mais de 6% do PIB.
Num outro registo, Lagarde instou os líderes do G7 a debaterem a subvalorização do yuan como parte dos desequilíbrios globais, ainda que tenha afastado a ideia de um novo Acordo de Plaza. A referência surge num momento em que a Europa enfrenta dificuldades para competir com produtos chineses em setores como o automóvel de gama alta.
O próximo marco factual a acompanhar será a reação dos mercados aos dados de inflação subjacente de maio, que se revelou superior ao inicialmente reportado (2,6%), e a eventual recalibragem das expectativas para a reunião do BCE de julho. No plano africano, o Conselho de Administração do FMI deverá aprovar nas próximas semanas o desembolso de 6,1 milhões de dólares para São Tomé e Príncipe, enquanto prosseguem as negociações aceleradas com Maláui.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A presidente do BCE minimiza os receios de efeitos inflacionários de segunda ordem, defendendo que as expectativas de preços a longo prazo continuam bem ancoradas. O banco central aumentou as taxas, mas Lagarde acredita que a política monetária atual é adequada para trazer a inflação de volta a 2%.
Lagarde não vê necessidade de uma resposta mais contundente do BCE ao conflito no Oriente Médio, pois a inflação deve retornar à meta. Ao mesmo tempo, levanta a questão dos desequilíbrios cambiais globais e insiste que a China faça parte de qualquer discussão sobre taxas de câmbio.
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